E quando chegar a hora, quando meu caminho der na porta de uma pessoa boa que vá reconhecer em mim o seu amor, ela há de perceber que comigo poderá dividir tudo quanto sente. O que dói e o que alivia, o que aflige e o que anima, o que assusta e o que serena. Tudo. Tanto quanto eu mesmo hei de partilhar com ela o que passar aqui dentro.
De todas as benesses de sentir amor por alguém, para mim a mais bonita é a liberdade de dividir com ele o que nos for preciso, urgente, vital ou tão somente tudo aquilo que se possa ou se queira revelar. Sem isso o amor é nada.
Sem a intimidade de contar a quem amamos tudo quanto nos fere, alegra, preocupa ou angustia, seremos nada senão meros mal amados evitando o julgamento inevitável, conformados de que a porrada virá de quem devia nos acolher.
O mundo é por demais habilidoso nas artes da variação! Hoje amanhece doce, carinhoso, enfeitado de notícia boa. Amanhã se torna hostil, amargo, aborrecido. Esse bate e assopra desacorçoa a gente, provoca sentimentos conflitantes que fazem mal se os guardamos aqui dentro feito segredos. É preciso dividi-los com alguém. Se for com o amor da gente, melhor.
Se o amor é um exercício de liberdade, de que serve amar alguém ao lado de quem eu não posso ser livre para falar o que sinto? Não quero esconder nada nem ser obrigado ao que quer que seja na companhia de um amor. Escolho amar uma pessoa e caminhar ao seu lado para me libertar. Ou prefiro ficar só.
Em toda história de amor saudável, tem coisa que a gente não quer dividir, mas se quisesse poderia. Tem coisa que a gente só não divide porque não quer e ser livre é isso mesmo. Não querer dividir é permitido. Não poder dividir é diferente. Impensável. Um amor com que não se pode dividir tudo é o mesmo que nada.
Aqui entre nós, ter por perto alguém que não me dê nada nem aceite o que eu tenho para dar é burrice. Eu prefiro ficar bem longe.
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