É lindo e nobre sermos empáticos, colocar-se no lugar do outro a ponto de sensibilizar-se com suas dificuldades, sentir-se feliz em ajudar. Em alguns casos, a empatia é tão forte que é capaz de fazer o empático sentir a dor do outro, nem que seja por alguns segundos, através da projeção, pois o outro tem algo similar à sua vida, assim é comum projetar a dor para si próprio em uma intensidade grande.
Outro dia, no farol, levei um susto quando estava distraída e, de repente, um garoto que fazia malabarismos veio até meu vidro e bateu, pedindo qualquer coisa. Percebi que, com sua altura, ele chegava abaixo da metade do vidro do carro, tão menino, lembrou-me alguém que tanto amo. Ali estava ele, tão carente e sem cuidados, sem qualquer amor, sozinho e jogado à própria sorte. Lágrimas escorreram-me dos olhos, afinal ele deveria estar em casa, quentinho, após um bom banho, além de bem alimentado, após um dia intenso na escola!
Que dor eu senti e, ao mesmo tempo, uma impotência enorme, que torna a dor mais avassaladora! Seu rosto guardo na memória… castigando-me por seguir meu caminho como faço todos os dias, como se não me importasse.
A verdade é que não acredito que o ajudaria dando-lhe dinheiro, apenas o incentivaria a passar mais horas na rua.
Essa cena de empatia é real, muitos teriam o mesmo sentimento, afinal falamos de alguém que não me feriu, não tem nenhuma relação comigo.
Porém, cheguei à conclusão de que somos humanos, antes de sermos empáticos. Pois ao tentar exercer a empatia com alguém que o magoou, mesmo sem querer, você se depara com seu ego lhe pregando uma peça. Por vezes, você perdoa e entende claramente os motivos pelos quais a pessoa o machucou, exercendo a empatia de forma integral e enxergando realmente com os olhos do outro, pois cada um faz alguma coisa por necessidade, por um motivo que fazia sentido no momento, sem qualquer maldade ou intenção.
Por vezes, toda aquela empatia magnífica, que o fez nobre, se esvai sem você compreender, e então você endurece e vira um ser humano normal.
Que sensação de impotência, mais uma vez! É como se alguns mecanismos cerebrais o fizessem entrar mais uma vez no módulo de defesa e você parece que não perdoa, volta à estaca zero, perde tempo, perde vida.
Que instabilidade, altos e baixos, que ninguém pode compreender!
É sábio ter a consciência de que a falta de perdão faz muito mais mal a quem deixa de perdoar, mas como é difícil não agir como um humano!
Por isso, tenho a certeza de que é difícil sermos empáticos antes de sermos humanos e de que muito tenho a progredir no meu caminho de fé. Mas não desisto, pois a estrada da vida me permite estar em constante evolução.
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