A terapia online deixou de ser apenas uma alternativa para quem mora longe de um consultório. Hoje, ela também permite o acesso a abordagens psicoterapêuticas mais específicas, entre elas o EMDR online, utilizado principalmente no trabalho com experiências traumáticas e memórias emocionalmente perturbadoras.
Mas uma dúvida continua comum: se o EMDR é conhecido pelos movimentos oculares e pela interação próxima entre terapeuta e paciente, como esse tratamento funciona pela internet?
Na prática, o atendimento remoto mantém a estrutura clínica da abordagem e adapta determinadas técnicas ao ambiente digital. O terapeuta continua avaliando a história do paciente, preparando-o para o trabalho com memórias, acompanhando as respostas emocionais e utilizando formas de estimulação bilateral compatíveis com a sessão online.
O ponto central não é a tela.
É o processo terapêutico.
EMDR é a sigla para Eye Movement Desensitization and Reprocessing, traduzida como Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares.
Trata-se de uma abordagem estruturada de psicoterapia desenvolvida para ajudar no processamento de experiências que continuam associadas a sofrimento emocional intenso.
Em alguns casos, a pessoa sabe racionalmente que um acontecimento terminou, mas continua reagindo emocionalmente como se o perigo ainda estivesse presente.
Isso pode acontecer diante de:
O EMDR busca trabalhar a forma como essas experiências permanecem armazenadas e ativadas no presente.
A estrutura terapêutica é essencialmente a mesma.
O que muda é o meio utilizado para conduzir algumas etapas.
No atendimento presencial, terapeuta e paciente dividem o mesmo ambiente.
No EMDR online, a sessão acontece por videochamada, e os recursos de estimulação bilateral são adaptados para que possam ser utilizados com segurança e conforto à distância.
O profissional continua acompanhando as reações do paciente, fazendo perguntas, observando mudanças no nível de desconforto e decidindo quando avançar ou interromper determinada etapa.
Portanto, EMDR online não significa simplesmente assistir a um estímulo na tela enquanto pensa em uma lembrança difícil.
Existe todo um processo clínico ao redor disso.
O tratamento normalmente não começa diretamente pelas memórias mais dolorosas.
Antes disso, existe uma fase de avaliação.
O psicólogo procura compreender:
Essas informações ajudam o profissional a decidir quais memórias podem ser trabalhadas e em qual momento.
Essa etapa é especialmente importante no atendimento remoto.
Antes do reprocessamento de memórias traumáticas, o terapeuta pode trabalhar estratégias de estabilização emocional.
O paciente aprende formas de perceber melhor as próprias reações e de recuperar maior sensação de segurança quando necessário.
Esse preparo ajuda a evitar a ideia equivocada de que EMDR é simplesmente “abrir uma memória traumática e movimentar os olhos”.
Segundo a psicóloga Josie Conti, especialista em terapia online e EMDR, o trabalho remoto precisa ser estruturado levando em conta não apenas a lembrança que será processada, mas também os recursos emocionais do paciente e as condições adequadas para conduzir cada etapa do tratamento.
Esse cuidado faz parte de uma aplicação responsável da abordagem.
O terapeuta e o paciente identificam experiências relacionadas ao sofrimento atual.
Nem sempre se começa pela lembrança mais antiga ou mais intensa.
A escolha depende do planejamento clínico.
Uma determinada memória pode ser trabalhada considerando elementos como:
Por exemplo, uma experiência de humilhação pode estar ligada a pensamentos como:
“não sou bom o suficiente”;
“não tenho valor”;
“não consigo me defender”.
Essas associações ajudam a compreender como acontecimentos do passado continuam influenciando a vida atual.
A estimulação bilateral é uma das características mais conhecidas da abordagem.
Ela envolve estímulos alternados entre os dois lados.
No atendimento online, isso pode ser realizado de diferentes maneiras.
O paciente pode acompanhar visualmente um estímulo que se desloca de um lado para o outro.
Dependendo da plataforma e da estratégia utilizada, esse estímulo pode aparecer na própria tela.
O profissional pode orientar movimentos que sejam acompanhados visualmente pelo paciente durante a sessão.
Em algumas situações, o paciente pode realizar estímulos alternados no próprio corpo, seguindo as orientações do terapeuta.
Também podem ser utilizados sons alternados entre os lados, quando essa estratégia é considerada apropriada.
O tipo de estimulação utilizado depende do caso e da forma de trabalho do profissional.
Não necessariamente.
Essa é uma das dúvidas mais frequentes sobre EMDR.
O tratamento não exige, em todos os casos, que o paciente descreva verbalmente cada detalhe de uma experiência traumática.
O terapeuta precisa compreender aspectos suficientes da situação para conduzir o processo, mas o trabalho pode acontecer mesmo quando determinados detalhes não são verbalizados completamente.
Para algumas pessoas, isso torna a abordagem mais tolerável.
Ainda assim, cada caso é diferente.
Durante determinada etapa da sessão, o paciente é orientado a acessar aspectos da memória.
Depois, são realizadas séries de estimulação bilateral.
Entre essas séries, o terapeuta pergunta o que surgiu.
Podem aparecer:
O processo não segue necessariamente uma sequência racional.
Às vezes, a mente associa uma lembrança a outra experiência aparentemente distante.
O profissional acompanha essas mudanças sem tentar impor uma interpretação pronta.
Trabalhar uma memória difícil pode gerar desconforto.
Mas o objetivo do tratamento não é simplesmente fazer a pessoa reviver o acontecimento.
Existe uma diferença importante entre lembrar de algo dentro de um processo terapêutico estruturado e ser tomado novamente pela experiência sem recursos para lidar com ela.
Por isso, preparação e acompanhamento são fundamentais.
O profissional observa o nível de ativação emocional durante a sessão e pode ajustar o ritmo quando necessário.
Não.
O objetivo do tratamento não é produzir esquecimento.
A pessoa continua sabendo o que aconteceu.
O que pode mudar é a intensidade emocional ligada àquela lembrança.
Uma experiência antes associada a medo intenso pode, depois de trabalhada, ser reconhecida com maior sensação de distância emocional.
A memória continua pertencendo à história.
Mas pode deixar de parecer tão presente.
Imagine alguém que sofreu um acidente anos atrás.
A pessoa sabe que está segura.
Ainda assim, ao entrar em um carro, pode apresentar:
Racionalmente, ela reconhece que o episódio terminou.
Emocionalmente, parte da reação continua ligada à experiência anterior.
O trabalho com EMDR busca ajudar o sistema emocional a processar melhor essa informação.
A mudança desejada não seria:
“Eu esqueci que sofri um acidente.”
Seria algo mais próximo de:
“Eu lembro do acidente, mas meu corpo já não reage como se ele estivesse acontecendo novamente.”
Experiências antigas também podem ser trabalhadas.
Não existe uma regra segundo a qual uma lembrança deixa de poder ser abordada depois de determinado período.
Uma situação vivida durante a infância pode continuar interferindo na vida adulta.
O mesmo vale para experiências da adolescência ou de décadas anteriores.
O que importa é compreender se aquela experiência continua relacionada ao sofrimento atual.
A indicação precisa ser feita individualmente, mas a abordagem costuma ser associada principalmente ao tratamento de experiências traumáticas.
Entre as situações que podem ser avaliadas pelo profissional estão:
Nem toda experiência difícil exige EMDR.
Da mesma forma, nem todo paciente com trauma necessariamente terá essa abordagem como primeira indicação.
A avaliação clínica continua sendo indispensável.
O formato remoto pode ser interessante para pessoas que:
Também pode ampliar o acesso a especialistas.
Uma pessoa que vive em uma cidade pequena, por exemplo, não precisa necessariamente limitar sua busca aos profissionais disponíveis naquela região.
Sim.
O local da sessão pode influenciar a qualidade do atendimento.
O ideal é procurar:
É importante evitar realizar o atendimento em ambientes públicos ou enquanto dirige, trabalha ou realiza outras atividades.
A sessão exige atenção.
Em atendimentos online, é recomendável que o profissional conheça informações básicas sobre a localização e sobre recursos disponíveis em caso de necessidade.
Isso é especialmente relevante quando o paciente está em outro país.
Em situações clínicas mais complexas, pode ser importante conhecer serviços locais de suporte.
O atendimento remoto não elimina a necessidade de planejamento de segurança.
A segurança depende de diferentes fatores.
Entre eles:
Não basta simplesmente reproduzir movimentos oculares diante de uma tela.
É justamente por isso que vídeos genéricos encontrados na internet não equivalem a uma sessão de EMDR.
Procure verificar se o profissional possui:
Também é válido perguntar como funciona a modalidade remota.
Um profissional qualificado deve conseguir explicar:
Não.
A aparência da técnica pode ser enganosa.
Os movimentos dos olhos são visualmente chamativos e acabam recebendo quase toda a atenção.
Mas eles representam apenas uma parte da abordagem.
O tratamento envolve história clínica, preparação, planejamento, avaliação de respostas emocionais, processamento e acompanhamento.
O EMDR não deve ser reduzido a uma técnica mecânica.
Não existe uma resposta única.
Algumas pessoas possuem uma experiência traumática relativamente delimitada.
Outras apresentam várias experiências relacionadas entre si.
A duração depende de fatores como:
Prometer um número exato de sessões para todas as pessoas seria pouco realista.
Uma das maiores contribuições da psicoterapia online é justamente eliminar parte das barreiras geográficas.
Quem deseja procurar um profissional com formação específica em trauma já não precisa necessariamente encontrar alguém no próprio bairro ou cidade.
O EMDR online mantém os principais elementos do processo terapêutico, adaptando os recursos de estimulação bilateral e a organização das sessões ao ambiente remoto.
Mais importante do que a tecnologia utilizada é a forma como o tratamento é conduzido.
A abordagem não pretende apagar experiências difíceis nem fazer alguém esquecer o passado.
O objetivo é permitir que determinadas memórias possam ser processadas de maneira diferente e deixem de provocar o mesmo impacto emocional no presente.
Para pessoas que carregam experiências perturbadoras, isso pode signific uma mudança importante: continuar conhecendo a própria história sem precisar senti-la repetidamente com a mesma intensidade.
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