Autores

RESILIÊNCIA, A ARTE DE VIVER

De algum tempo que o termo resiliência se tornou popular nos textos e reflexões que abordam questões psicológicas. Oriundo da Física, significa a capacidade que alguns metais têm de receber e absorver um impacto, retornando à sua forma original.
No âmbito psicológico, o conceito está ligado à habilidade psíquica de lidar com frustrações, absorver e elaborar suas ações traumáticas, aceitar o inevitável e alterar o que for possível, retornando a um estado de harmonização interior.

Apesar da aparente novidade, a ideia é antiga, tendo Freud defendido que uma mente saudável precisa ter um ego forte e flexível, justamente o mesmo sentido do conceito resiliência. Um ego forte possui capacidade de enfrentar e alterar os estímulos indesejáveis, internos e externos, e, por ser flexível, tem a habilidade de absorver os impactos, adaptando-se às novas situações que surgem sem grandes afetações.
Vale ressaltar que a ideia de força egóica não pressupõe rigidez. Isso acontece mesmo a nível biológico com a musculatura do corpo humano que pode ter força mesclada com flexibilidade. Na verdade, na maioria das vezes, um ego rígido não tende a ser forte, mas se esconde, na sua rigidez, de uma fragilidade com a qual não consegue lidar. São aqueles tipos de pessoas tão temerosas das mudanças e variáveis da vida que tentam impor sua vontade inexorável ao destino que, com certeza, não se curva a estes caprichos. Acabam por adoecer psicologicamente como forma de fuga de uma realidade que frustrou seus desejos imaturos e com a qual não sabem lidar.

A falta de resiliência vem, então, acompanhada de sentimentos de revolta contra as adversidades. Esta revolta é fruto do orgulho narcísico que quer controlar a vida, concretizar seus desejos ao longo do caminho sem nenhuma frustração. E é aí que surge o que chamamos de dor secundária, típica dos revoltados, que se sobrepõe a uma dor primária. Se a dor primária é inevitável, por força das contingências da realidade impermanente em que vivemos, a dor secundária é opcional, fruto da não aceitação que faz com que qualquer problema se torne pior do que poderia ser.

Baseados nessas premissas, podemos dizer, sem medo de errar, que pessoas resilientes são mais felizes do que as revoltadas, porque aceitam as dores primárias enquanto as outras geram uma nova dor que se encontra na revolta.

Se você quebrou suas duas pernas e não pode andar, ainda assim te restam opções: aproveitar a imobilidade para fazer coisas interessantes como ler, atualizar contatos, ver alguns filmes, ou se revoltar na lamentação do que não pode fazer diante da incapacitação momentânea. A escolha é sua.

 
É claro que, a meu ver, alcançar níveis mais satisfatórios de resiliência pressupõe algumas habilidades psíquicas. Uma delas será mudar o ponto de vista. Quando você observa a vida pelo ângulo restrito de uma só existência fica mais fácil se sujeitar ao desejo do gozo absoluto – já que tudo vai acabar um dia e não existe sentido maior para nada – e difícil lidar com a sua frustração. A percepção espiritual, sob qualquer foco religioso ou filosófico, aumenta a sensação de impermanência, de uma relatividade existencial que ressignifica os fatos do cotidiano dentro de uma dimensão muito mais ampla, portanto menos fatalista.
Não é por acaso que os conceitos atuais de saúde, mesmo os materialistas, envocam a necessidade de satisfação física, social, psicológica e espiritual. Não espiritual enquanto doutrina espiritualista ou sectarismo religioso, mas a dedicação a reflexões de religiosidade que tragam novas compreensões existenciais.

 
Quando o antigo Mestre da Galiléia recomendou a humildade como requisito para se herdar a terra prometida, de paz e ventura, na verdade recomendava uma maior aceitação dos fatos da vida. Não a aceitação passiva que o Estado cristão nos impôs, com interesses de dominação, mas uma aceitação ativa, resiliente, sem revoltas, promotora de força e flexibilidade egóicas para os enfrentamentos e transformações do caminho.

João Carvalho Neto

-Psicanalista -Terapeuta Floral -Terapeuta Regressivo -Mestre em Psicanálise -Psicopedagogo -Autor dos livros “Psicanálise da alma” e “Casos de um divã transpessoal” -Autor da tese “Fatores que influenciam a aprendizagem antes da concepção” publicada na Revista da Associação Brasileira de Psicopedagogia e apresentada no V Congresso Brasileiro de Psicopedagogia -Autor do trabalho “Estruturação palingenésica das neuroses” apresentado no 3º Congresso da Associação Médico Espírita do Brasil -Autor do Modelo Teórico para Psicanálise Transpessoal, apresentado no 3º Congresso Mundial de Terapia Regressiva (RJ) e no I Congresso Nacional de Terapia Regressiva (BA) -Presidente IV Congresso Nacional de Terapia Regressiva (RJ) -Professor convidado do Curso de Pós-graduação em Terapia Regressiva da Faculdade Einstein (São Paulo, Salvador e Aracaju) -Criador do Espaço Terapêutico “Elaboração – terapias e cursos” -Coordenador do Grupo de Estudos em Psicanálise Transpessoal -Editor do jornal “Elaboração” -Escritor de artigos publicados em revistas e jornais especializados -Orador de palestras realizadas em reuniões, eventos, congressos e seminários -Poeta

Recent Posts

Quantos rostos você consegue ver nesta árvore? Não existe resposta certa — e isso diz muito sobre como você enxerga o mundo

À primeira vista, é só uma árvore comum, com galhos secos e uma copa ampla.…

2 dias ago

“Não tenho tempo! Ele está na escola, então o problema é seu”: professora revela frustração com pais que não desfraldam os filhos

Uma professora primária do sul da Inglaterra decidiu desabafar ao jornal britânico Daily Mail sobre…

2 dias ago

Você se lembra dela? Ela virou sensação nos anos 60 com um programa de TV e, décadas depois, ainda brilha ao lado da própria filha no Oscar

Tem rostos que atravessam gerações sem perder o brilho. Esse é um deles: uma atriz…

2 dias ago

Aos 81 anos, essa atriz nunca recorreu a cirurgia plástica e segue ativa em Hollywood — e é madrinha de uma estrela mundialmente famosa. Você sabe quem é?

Existem carreiras que atravessam décadas sem perder o brilho, e existem atrizes que encaram o…

3 dias ago

Ele foi um dos maiores ídolos teen dos anos 80 — e morreu na pobreza depois de tentar vender os próprios dentes e cabelo. Você lembra dele?

Nos anos 80, era impossível não reconhecer aquele rosto. Poucos anos depois, o mesmo ator…

3 dias ago