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O que aprendi ao reviver o meu primeiro amor

Em suas mãos havia tatuagens esquisitas, talvez fossem animais. Nunca imaginei que ele faria isso. Corri para me esconder atrás de uma planta assim que o avistei em uma loja de roupas com estilo surfista.

Recentemente, tinha visto no Instagram que ia quase todos os finais de semana para a praia, surfar, mesmo assim, nunca tinha reparado nas tatuagens. Talvez fossem novas. Alguns metros nos separavam. Adrenalina lá no alto, o coração acelerado e a boca seca me lembraram que ele ainda despertava algo em mim, mas não sabia muito bem dizer o que era.

A camiseta com estampa curiosa, larga, muito maior do que o seu número, vinha acompanhada de um short preto e um tênis, compondo um visual despojado. Na nossa época, ele era mais engomadinho, pensei. Imagine só meus pais vendo meu ex-namorado com tatuagens nas mãos e uma roupa largadona dessa. Iam pirar. Aliás, nem sei como ele tinha mudado tanto em tão pouco tempo.

Se não o conhecesse muito bem, seria capaz de nem tê-lo reconhecido.

Ainda em minha missão espiã atrás da planta, apertei os olhos para ter certeza de que não estava alucinando ao notar uma aliança em sua mão direita. Impossível! Aliança? Ele detestava esse tipo de coisa, achava brega.

Não precisei continuar encarando a sua mão tatuada com aliança para ter certeza do seu novo relacionamento – a suposta namorada chegou em poucos segundos, abraçando-o como um urso panda. Ela também tinha muitas tatuagens e o cabelo com a raiz preta, mas a parte tingida de loiro nas pontas dava um ar de praia que eu nunca consegui adquirir — tinha tudo a ver com a nova versão do meu ex-namorado.

Respirei fundo, cansei-me de espiar. Sentei no banco atrás da planta e fechei os olhos por alguns segundos, pensando: quem é essa pessoa? Era só isso que conseguia me perguntar. Um ano separados e parecia um desconhecido para mim.

O outro continua vivo

Deve ser aquele papo de que, ao terminar um relacionamento, o outro continua vivo, perambulando por aí, mas nós não sabemos mais nada sobre a sua vida. É aquela sensação de que a pessoa morreu, mas continua viva. Realmente, nunca mais tínhamos nos encontrado pessoalmente e as poucas fotos do Instagram não traduziam muito bem quem tinha se tornado.

Foi o meu primeiro namorado. Uma paixão maluca que me desnorteou e me fez aprender o que é amar. Eu nunca mais seria a mesma depois de nós, nunca mais amaria alguém como o amei, pois aprendi que cada amor é único. Amamos cada pessoa que cruza a nossa vida de uma maneira muito singular.

Os amores nunca podem ser comparados, é injusto. Cada relacionamento acontece em uma fase diferente de nossa vida. A cada amor, somos alguém diferente.

O que vivemos juntos era só nosso, ficou guardado em algum lugar do passado, quando ele ainda era aquele garoto e eu aquela garota.

Hoje já somos diferentes. As lembranças continuam em nossa memória para que, sempre que quisermos, seja possível resgatar o nosso primeiro amor, como ele nos transformou e como nunca mais seremos os mesmos.

Porque a vida passa, a vida muda, e a gente evolui junto. Sem olhar para trás, cancelei a minha missão espiã e tive a certeza de que um amor como o nosso não pode ser vivido novamente, pois nós nem sequer existimos mais.

Bruna Cosenza

Bruna Cosenza é paulista e publicitária. Acredita que as palavras têm poder próprio e são capazes de transformar, inspirar e libertar. É autora do romance "Lola & Benjamin" e criadora do blog Para Preencher, no qual escreve sobre comportamento e relacionamentos do mundo contemporâneo.

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