Autores

Geralmente, as pessoas nos tratam mal quando sabem que serão perdoadas

Na certeza de que sempre será perdoada, a pessoa tem um passe livre nas mãos, para continuar vivendo do modo que quiser, sem pensar em mais ninguém. Por isso é que perdoar não nos obriga a continuar mantendo o outro em nossas vidas, mas nos tranquiliza nas tomadas de decisão que tomaremos em relação a quem nos machuca.

Dia desses, conversando com um amigo que é psicólogo, questionei o fato de muitos filhos tratarem mal os pais em casa, enquanto, na rua, possuem um comportamento educado, sendo pessoas queridas e estimadas. Ele então me disse que os filhos são mal humorados com os pais porque têm certeza de que serão perdoados por eles. E isso me explicou muita coisa.

Creio que o medo de que poderemos perder o outro é que nos faz tomar consciência da necessidade de tratá-lo bem, de regarmos os relacionamentos que nos são especiais, com amor e cuidados. Porque a gente acaba se esquecendo daquilo com o que já é costume, colocando no modo automático tudo o que já é uma certeza em nossas vidas. Infelizmente, o que envolve amor e interação humana não sobrevive automaticamente.

Também comecei a refletir sobre a complexidade que o perdão carrega. Perdoar é preciso, porque o peso sai da gente, fazendo-nos olhar com mais clareza os fatos, bem como o nosso papel naquilo tudo que aconteceu. Embora existam situações em que perdoar será extremamente difícil, tamanha a dor que nos tomará, o perdão terá que ocorrer, porque teremos que ir embora sem nada mais que nos prenda a quem nos machucou e deverá ficar lá atrás – longe, nulo, junto ao nunca mais.

Fato é que perdoar todos os erros do outro nunca fará com que ele repense a forma como vem agindo, tornando-o alguém que não muda. Na certeza de que sempre será perdoada, a pessoa tem um passe livre nas mãos, para continuar vivendo do modo que quiser, sem pensar em mais ninguém. Por isso é que perdoar não nos obriga a continuar mantendo o outro em nossas vidas, mas nos tranquiliza nas tomadas de decisão que tomaremos em relação a quem nos machuca.

Muitos se esquecem de que há pessoas ali ao lado, enquanto ficam olhando lá na frente, sem se lembrar de dar as mãos ao que já é amor de fato. Se a gente acaba perdoando tudo, sempre, isso nos afasta, cada vez mais, de nós mesmos, porque então só priorizamos o outro, sufocando o que somos e sentimos sob a necessidade de manter por perto quem deveria sumir da nossa frente. Perdoar faz bem, perdoar-se é vital, pois o adeus, então, ainda que doa, será mais leve e limpo.

Prof. Marcel Camargo

Graduado em Letras e Mestre em "História, Filosofia e Educação" pela Unicamp/SP, atua como Supervisor de Ensino e como Professor Universitário e de Educação Básica. É apaixonado por leituras, filmes, músicas, chocolate e pela família.

Recent Posts

Homem usa IA para se candidatar a 1.000 vagas enquanto dorme — e o resultado surpreende

A busca por emprego sempre foi sinônimo de esforço: ajustar currículo, escrever cartas de apresentação…

11 horas ago

Motorista preso em ponte quebrada: você escolheria ir para frente ou para trás?

Recentemente, nas redes sociais, uma imagem simples vem intrigando e dividindo os internautas. E a…

11 horas ago

Caso PC Siqueira: perícia particular contesta laudo oficial e levanta nova linha de investigação

Uma reviravolta no caso envolvendo a morte do influenciador PC Siqueira trouxe novos questionamentos sobre…

11 horas ago

Nova série de mistério na Apple TV+ promete substituir From e já está intrigando o público

Você é fã de história cheia de segredos, suspense? Se sim, preste atenção: uma nova…

11 horas ago

O significado oculto dessa tatuagem comum está deixando muita gente sem reação

As tatuagens sempre foram uma forma de expressão pessoal, símbolos que carregam histórias, fases da…

11 horas ago

Teste visual: escolha o diferente e descubra o quão complexo é o seu modo de pensar

Você consegue identificar rapidamente o que foge do padrão? Testes visuais que desafiam você a…

11 horas ago