É certo que eu vou me estrepar. Logo, logo tropeço nesse terreno impreciso e ganho o chão. Vai doer. Não importa. O único jeito de seguir em frente é pisar firme e aceitar o caminho como ele é. Nem sempre se pode dar a volta. Ou se vai adiante ou se aceita ficar parado. E eu não aceito. Então eu sigo como devo. Com o coração na frente.
Confesso. Eu sofro de esperanças. Padeço de uma vaga impressão de que tudo vai dar certo e ficar bem, que a felicidade é questão de tempo, aquela que eu espero no caminho há de me dar a mão ali, logo ali… na frente, e nosso amor será verdadeiro e bonito como um prato quente que sussurra para o céu um aroma antigo de tempero de avó, aquecendo o coração de toda gente como uma lembrança de coisas boas e simples.
Minha esperança é assim, ingênua, impertinente, irresponsável, inocente. E até que tudo se concretize, é ela que vale.
Sim, eu também sinto medo. Mas viver sem sentir não tem o menor sentido. E o medo é sentimento irmão do amor. Invejo quem tem certeza de que um é o contrário do outro. Eu não consigo. Quanto mais amor eu sinto, mais eu tenho medo.
Enquanto escrevo o que me vai na cabeça, tento honestamente suspeitar o que acontece em meu aqui dentro. E é tanto sentimento bonito junto, tanto afeto, tanto apreço reunidos como os convidados de uma festa de aniversário a que ninguém decidiu faltar, que eu sinto um frio na nuca, um gelo no estômago e já nem sei o que passa.
Sei, por enquanto, que estou debaixo da chuva e ela há de me molhar. Sei que aquilo que não mata, engorda. E que o sentido mais fundo da vida é sentir, sentir com honestidade tudo o que for. Ainda que seja minha própria cara no chão. É tudo o que eu sei e é o que basta por enquanto. Por enquanto.
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