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CRESCER É PARAR DE CULPAR OS PAIS POR TUDO

Quebrar padrões que repetimos desde a infância é tarefa extremamente árdua. Exige um esforço homérico, um desejo real de mudar. Mas para isso é necessário crescer, e com certeza , vale muito a pena.

Diante de uma ofensa, de uma ironia, de uma negligência afetiva, temos a possibilidade de nos identificarmos com a posição de vítima e temos também a possibilidade de criarmos algo de interessante com aquela perda, com aquela rejeição ou sofrimento.

Procuramos uma análise quando descobrimos que desejamos mais qualidade de vida. E quando uso a expressão qualidade de vida, não me refiro aos clichês divulgados pelo discurso dominante.

Eu me refiro à possibilidade de ter uma vida mais significativa, mais feliz, dentro da singularidade de cada um.

Quando iniciamos um processo analítico, a tendência é jogarmos a culpa de nossas tristezas em cima de diversas pessoas, principalmente dos pais e dos parceiros amorosos.

Não quero dizer que os pais não cometam muitos erros nem que parceiros amorosos não provocam muito sofrimento em nossa vida.

Porém, independente de tudo o que nos acontece e de tudo que nos aconteceu, é importante perceber o nosso papel como protagonista em nossa vida.

Diante de uma ofensa, de uma ironia, de uma negligência afetiva, temos a possibilidade de nos identificarmos com a posição de vítima e temos também a possibilidade de criarmos algo de interessante com aquela perda, com aquela rejeição ou sofrimento.

Se a falta de afeto do nosso primeiro amor, do parceiro atual ou até mesmo dos pais deixa rombos homéricos em nossa existência, há a possibilidade de reelaborarmos este vazio no sentido de construir no futuro relações mais felizes.

A nossa tendência é repetir padrões, é buscar um modelo de relacionamento que nos é familiar, mesmo que seja muito infeliz.

Inconscientemente, escolhemos reviver o que nos foi mais doloroso.

Por isso é preciso crescer!

Pessoas que foram pouco amadas na infância ou que não foram amadas da forma que elas desejaram, tendem a entrar em relações fadadas ao fracasso.

Durante a análise, começamos a perceber esta repetição, esta escolha inconsciente pelo erro, pelo sofrimento, por aquilo que não dará certo apesar de nossos esforços conscientes.

Começamos a perceber também que nossos pais são humanos, portanto, falhos, limitados, traumatizados pelos erros dos seus pais também.

Não digo que seja simples e indolor aceitar os pais como pessoas que erram nem quebrar círculos viciosos. Mas é possível.

Não é porque alguém foi pouco amado como filho que não poderá amar muito como pai ou como mãe. Não é porque alguém viveu uma série de relações amorosas medíocres que não poderá construir um relacionamento cheio de afeto e cumplicidade.

Quebrar padrões é tarefa extremamente árdua. Exige um esforço homérico, um desejo real de mudar. Mas para isso é necessário crescer, com certeza , vale muito a pena.

Sílvia Marques

Viciada em café, chocolate, vinho barato, filmes bizarros e pessoas profundas. Escritora compulsiva, atriz por vício, professora com alma de estudante. O mundo é o meu palco e minha sala de aula , meu laboratório maluco. Degusto novos conhecimentos e degluto vinhos que me deixam insuportavelmente lúcida. Apaixonada por artes em geral, filosofia , psicanálise e tudo que faz a pele da alma se rasgar. Doutora em Comunicação e Semiótica e autora de 7 livros. Entre eles estão "Como fazer uma tese?" ( Editora Avercamp) , "O cinema da paixão: Cultura espanhola nas telas" e "Sociologia da Educação" ( Editora LTC) indicado ao prêmio Jabuti 2013. Sou alguém que realmente odeia móveis fixos.

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