UM TEXTO SOBRE NÓS

Marina Melz

É domingo e você está na sala assistindo a um filme de três horas enquanto eu fico aqui, quietinha, ouvindo o disco novo do Tom Zé. Sempre achamos engraçado como isso, para os nossos amigos, soa esquisito. No fundo somos mesmo difíceis de compreender à primeira vista e sabemos que a esquisitice nos tempera.

Nosso escritório parece o Yin-yang. O meu lado é todo colorido, cheio de post-its, revistas, referências, canetinhas, canetões e lápis de cor. O seu acumula apenas o computador, uma foto nossa e uma caneca do StarWars que deveria juntar canetas, mas reúne pen-drives. Sua estante de livros em inglês é organizada por universos onde as histórias acontecem, a minha pelo sobrenome dos autores, que varia entre entre Rodrigues, Sá, Martins, Ribeiro. Todos brasileiros.

Eu falo alto e o tempo todo. Há quem te conheça há semanas e não tenha ouvido a sua voz. O meu sorriso abre fácil, o seu é sempre uma conquista. Minhas decisões são sempre impulsivas, as suas quase sempre racionais. Meu café é amargo, o seu é doce. Eu prefiro massa, você não abre mão de um churrasco. O seu ciúme é declarado, o meu escondido. O seu tempo é hoje, o meu é ontem e amanhã.

Mas aí, mesmo com tudo isso, a sua pele me faz encontrar a calma e a minha agitação te tira do silêncio. A gente conversa por horas sobre coisas que discordamos sem perder a calma. Porque no fundo a gente gosta é de ser o advogado do diabo das certezas um do outro. Assim nós crescemos e aprendemos todos os dias – e concordamos que os adultos têm tanto a aprender! – a respeitar o diferente. No nosso caso, ele vive, trabalha e dorme ao lado.

O sofá é o acordo de paz entre o meu mundo e o seu. Área internacional, ONU, bandeira branca. É o lugar onde estamos em dois lugares ao mesmo tempo, numa terceira dimensão só nossa. Onde, na verdade, somos iguais.

Porque sabemos que não precisamos um do outro, mas nos queremos acima de qualquer coisa. Porque as nossas frases são tão sincrônicas quanto as nossas vontades. Porque não existe companhia melhor pra fazer nada e pra estar em qualquer lugar do que você. Mesmo quando estou do meu lado do escritório e você no seu.

Porque quando, sem que você veja, eu olho para os seus livros, para a tela onde você está jogando e para a caneca que eu nunca sei se é do Darth Vader ou do Stormtrooper, eu me sinto a pessoa mais completa do mundo. Duas peças iguais não se encaixam, nem no quebra-cabeças nem na vida. Ainda bem que somos diferentes.

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS





Marina Melz
É jornalista e trabalha com assessoria de imprensa.

COMENTÁRIOS