A DIFÍCIL ARTE DE APRENDER A ESTAR SÓ

De acordo com os anos de terapia que eu faço, uma das principais teorias levantadas para esse medo de ficar sozinha está a separação dos meus pais. Lá atrás, quando eu tinha 7 anos. É uma teoria bem básica – e até clichê – mas ela realmente pode ser verdade. Meu pai se separou da minha mãe, e de mim também. Teve uma nova esposa e novos filhos. E eu, com meus 7 anos, fiquei lá parada pensando por qual razão ele tinha me abandonado, afinal, não era eu a esposa dele.

Meus relacionamentos sempre foram legais, cheios de companheirismo. Aos 19, conheci o cara que eu namoraria por 5 anos, e amaria com intensidade, carinho, e muita amizade. Aos 24, conheci meu ex-marido e ficamos juntos por seis anos. Veio a separação, decisão tomada em conjunto e que me trouxe uma das melhores sensações do mundo: a liberdade.

Passei uns anos sem esse medo terrível. Tranquila, conhecendo pessoas legais, tendo alguns namoricos. Até que em meu último relacionamento me senti completamente abandonada às vésperas de juntar meus trapinhos com o cara. “Não estou preparado para casar”, ele disse uma semana antes da nossa mudança de casa. E fim.

Me senti abandonada e sozinha novamente. Desde então, dedico algumas horas pensando se serei uma mulher de sucesso profissional, cheia de atitudes, talentos e amigos, mas que volta para casa e vai dormir sozinha. Se quando eu tiver um problema, terei que chorar ali no meu travesseiro mesmo ou abraçar a minha cachorra, que me olha como se eu fosse o ser mais incrível do mundo.

A vida é implacável na hora de fazer um indivíduo aprender e amadurecer. E ela foi implacável comigo. Precisei sofrer um abandono que, a meu ver, foi brutal, para chegar lá no fundo do poço frio, úmido e sujo, para voltar à superfície limpa e brilhante, parar tudo e pensar: agora estou sozinha novamente. Como faz?

Pois é, não faz. Não é assim uma fórmula mágica que faz você se olhar no espelho do nada e dizer: estou tão feliz sozinha! Existe todo um processo de relacionamentos fadados ao fracasso, de pés na bunda, de caras que te idolatram só para te comer e não falam mais com você. De saber que o cara com quem você iria casar não quer nem saber como vai a sua vida hoje.

Estou seguindo meu curso e tirando uma pontinha de alguma coisa de cada experiência. Das boas experiências também. De conversas eternas com um amigo, das risadas com outra amiga, das pequenas viagens que fiz, dos momentos de insanidade boa.

Venho juntando tudo. Mesmo com aquele aperto no peito de vez em quando que me lembra: Ei, você está sozinha, começo a dar uma boa olhada nas situações boas do meu dia a dia. Parei de pensar na academia como se fosse um meio de não engordar para continuar atraente e passei a olhar pra ela como minha válvula de escape da ansiedade crônica, que eu carrego há 15 anos. Comecei a apreciar demais aquela cerveja gelada na companhia da minha melhor amiga. Tenho adorado desligar a TV a noite, pegar a minha taça de vinho e deitar no sofá sozinha para pensar na vida.

Estou fazendo parte do meu próprio processo de rejeição. Um processo que eu criei e que me faz ficar apavorada sozinha. Estou enfrentando a escuridão desse medo. Alguns dias eu choro. Outros eu me deleito com os pequenos prazeres da solidão, como citei acima.

Fiz uma pequena viagem com um grupo de amigos e senti um amor enorme ali. Não estava beijando na boca, não estava transando nem dormindo de conchinha ou vendo o por do sol romanticamente com alguém. Eu estava com os meus amigos e o amor deles. E foi incrível.

Me surpreendi comigo mesma ao ter esse sentimento. Devagar, creio que estou aprendendo algumas coisas sobre ficar sozinha. Talvez aprendendo a não ter pressa. Ou a curtir as outras milhares de felicidades gostosas da vida que vão além de um relacionamento. Quero estar no caminho certo e saber que garanto a minha felicidade completamente sozinha.

 

VIAALINE ROLLO
FONTEQueime Depois de Ler
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Resiliência Humana
Bem-estar, Autoconhecimento e Terapia



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