Como controlar (e lidar) com o ciúme

Resiliência Humana

Não consegue resistir a fazer cenas de cúme por tudo e por nada? Ou tem um namorado que a ofende constantemente porque não confia em si* Há quem defenda que, em doses moderadas, o ciúme pode ser um estimulante para a relação. Mas a fronteira entre o que é normal e o que é patológico pode ser muito ténue e ultrapassada, dando azo a situações de grande violência.

“Sou uma ciumenta crónica. O ciúme tolda-me completamente o raciocínio”, confessa Rita Alexandra, 27 anos. Esta gestora de contas já deu consigo a imaginar o namorado em múltiplos cenários e a fazer contas de cabeça para saber onde ele esteve em determinado dia. “Um dia destes telefonei-lhe para casa e a mãe disse-me que ele não tinha dormido em casa uma noite daquela semana. Fiquei maluca de ciúme e telefonei a uma amiga para desabafar. Uma hora depois aparece ele à porta, todo contente. Afinal tinha estado a ver o jogo do Sporting e… o pior é que me lembrei, depois, que a noite em que ele não foi dormir a casa da mãe foi porque a passou comigo.”

Sentimos ciúme quando “receamos perder o nosso parceiro amoroso e a fonte de satisfação que a relação representa para a nossa vida afectiva e emocional. O ciúme traduz, então, o interesse no envolvimento, no compromisso e na manutenção do relacionamento amoroso”, explica Maria de Lurdes Leal, psicóloga e autora da tese ‘Ciúme Sexual – percurso para um delírio da infidelidade’.

“Se não há razões para ter ciúmes, invento”

Mas este sentimento pode atingir o limiar do doentio e dar origem à ruptura da relação. “O ciumento patológico duvida permanentemente da sinceridade e fidelidade do parceiro que, por isso, sofre um clima de suspeita constante. Dominado pelo medo terrífico de perder o parceiro para um rival, este ciumento controla os passos e restringe a liberdade do alvo de ciúme. Invade o seu espaço pessoal e a sua interioridade. Fere os seus sentimentos com acusações infundadas e, muitas vezes, insultuosas, e acaba por destruir o vínculo da relação amorosa”, explica a psicóloga.

“Tive um namorado que acabou com tudo, porque já não aguentava os meus ciúmes. Às vezes sou mesmo impossível, tão chata. Sou muito ciumenta e manifesto-o sempre com discussão, ora porque ele está a olhar para aqui, ou para ali… Perco o controlo, apesar de depois voltar a mim. Pior: se não há razões para ter ciúmes, invento”, confessa Madalena Correia, 27 anos, técnica de informática. E vai mais longe: “Para mim é impossível imaginar uma relação sem ciúme. Quando deixo de ter ciúmes significa que o amor chegou ao fim.”

“Ofendia-me, e chegou a levantar-me a mão”

A grande questão, quando se fala de ciúme, é perceber qual o limite, para que este sentimento não se torne insuportável para ambas as partes. “O meu primeiro namorado era extremamente afectuoso. Era, mesmo, um doce de pessoa, sempre atento a tudo para me satisfazer. Mas, a certa altura, comecei a aperceber-me de algumas atitudes estranhas”, comenta Luísa Santos, 29 anos, professora.

“Acompanhava-me para todo o lado e ainda me telefonava todas as noites.” Mas o pior estava para vir. “Ao fim de ano e meio de namoro estávamos entre amigos e, em conversa, um deles atreveu-se a mandar um piropo. Foi uma coisa completamente inocente, mas o Zé passou-se e fez uma cena horrível, chegando a ser agarrado pelos restantes amigos para que não se pegassem. Foi bastante constrangedor. A partir daí foi o descalabro . Ofendia-me, inventando situações que só existiam na cabeça dele, e chegou a levantar-me a mão. Foi a gota de água. Por muito que gostemos de outra pessoa, temos sobretudo de gostar de nós e de preservar o nosso bem-estar.”

Para que a fronteira do suportável não seja ultrapassada, é fundamental que as pessoas se dêem conta dos seus sentimentos e conversem sobre eles. “Se alguém começa por sentir um ciúme normal, mas não o assume, optando por ocultá-lo ou dissimulá-lo, vai permanecer vigilante, tenso, aflito, desconfiado, na procura constante da confirmação das suas suspeitas, o que compromete severamente a confiança e a comunicação autêntica entre o casal. Este ciúme provoca sofrimento em quem o sente, no parceiro que o suscita e sabota os fundamentos da relação amorosa, torna-se patológico”, defende Maria de Lurdes Leal. E, em casos extremos o ciúme pode levar ao crime, ou a actos tresloucados, como foi o caso noticiado nas televisões de um jovem de Viseu que queimou a namorada com ácido.

O sal da relação… ou talvez não!

Muitas pessoas defendem que o ciúme é, de facto, um tempero da vida amorosa. “Faz-me falta uma pitadinha de ciúme, para dar gostinho à relação”, considera Catarina Costa, 27 anos, secretária. A mesma opinião tem Luísa. “Os ciúmes, na medida certa, fazem bem ao ego. Afinal, se ele sente ciúme é porque me acha bastante boa e alvo dos desejos de outras pessoas. Mas o que é demais é moléstia.”

Maria de Lurdes Leal clarifica estas ideias. ” O ciúme é um ingrediente intrínseco das relações amorosas. Quando amamos alguém desejamos ardentemente manter-nos como único e exclusivo depositário do seu amor. Isto é, não admitimos repartir o seu amor com ninguém. A intrusão, na parceria amorosa, de um terceiro elemento é vista e sentida como uma forte ameaça à manutenção e qualidade da relação. Por outras palavras, a intromissão de um rival faz tremer os alicerces da nossa segurança afectiva e emocional.”

E se os casos de homens ciumentos dão mais nas vistas, pela sua violência, ainda há muito a ideia de que são as mulheres quem mais ‘buzina’ ao ouvido dos seus companheiros, com dúvidas constantes. Porém, o ciúme parece ser mais uma questão de personalidade do que de género, como afirma a psicóloga. “Existe a crença bastante difundida de que as mulheres são mais ciumentas que os homens. Mas as investigações conduzidas acerca desta matéria não o sustentam. O que acontece é que a forma como se manifesta tende a ser diferente em função do sexo do ciumento. Duma forma geral as mulheres tendem a ser mais expansivas na expressão dos seus sentimentos em geral, e do ciúme, em concreto. Por sua vez, os homens são tendencialmente mais retraídos, usam de maior reserva nas suas manifestações emocionais. Como são menos expansivos, muitas vezes o esforço de contenção a que isso obriga gera uma tensão emocional de tal forma insustentável que quando ‘explodem’ protagonizam condutas extremamente violentas, que infelizmente constituem notícias demasiadas vezes.”

Os perigos de fazer pirraça

Apesar de todo o desconforto que este sentimento pode gerar, fazer ciúmes ainda é uma estratégia bastante utilizada por ambos os sexos. “Apercebi-me de que o meu namorado tinha ciúmes de um amigo comum. Comecei a tomar cada vez mais cafezinhos com esse amigo. Aproveitei-me da situação, porque ele, tal como muitos homens, tem a estúpida mania de me dar como segura”, revela Rita Alexandra.

Mas, para Maria de Lurdes Leal, fazer ciúmes é, acima de tudo, um jogo de poder. “Quando alguém recorre a esta táctica, o que na realidade pretende, mesmo que disso não tenha consciência, é fomentar uma situação de disputa, de rivalidade, para recuperar, manter ou alcançar o controlo e o domínio na relação amorosa.” E a psicóloga vai ainda mais longe: “Pode até iludir-se acreditando que o seu objectivo é não perder o amor do seu parceiro, mas quem provoca ciúme na pessoa que diz amar não tem amor para oferecer, precisa, isso sim, de ser amado e para isso não hesita em recorrer a este tipo de manipulação.”

Infidelidade emocional e sexual

E quando se fala de ciúme torna-se inevitável falar de infidelidade. Muitas vezes esta é apenas imaginária, ocorre apenas na cabeça de um ciumento que se convence de factos que não existem. Mas, afinal, o que receiam os ciumentos? O senso comum diz que os homens temem ‘apanhar’ as mulheres na cama com outros e que elas temem que eles se apaixonem por outras.

As teorias evolucionistas, bastante contestadas aliás, tentam explicar a razão de ser do ciúme: um pouco à semelhança do que acontecia no tempo em que vivíamos nas cavernas, “o homem sente-se mais ameaçado pela infidelidade sexual devido ao risco de vir a desperdiçar os seus recursos com uma descendência que não tem os seus genes. Nesta concepção, as mulheres, cientes de que os filhos são seus, sentem-se mais ameaçadas pela infidelidade emocional, uma vez que esta afecta a disponibilidade do parceiro, em termos de tempo e outros recursos, prejudicando as condições ideais para criar a prole”, esclarece Maria de Lurdes Leal.

Há ainda a teoria sócio-cultural do ciúme “que vem contrapor que a infidelidade sexual cometida pelo homem é menos ameaçadora que a cometida pela mulher. Um homem infiel não costuma abandonar o lar, ao passo que uma mulher, nas mesmas condições, muitas vezes o abandona”, clarifica a psicóloga, que adianta ainda “na nossa cultura a infidelidade sexual tem diferentes conotações para o homem e para a mulher. Tendencialmente a mulher encara o afecto como um pré-requisito para o sexo, ou seja, a infidelidade sexual envolve também a infidelidade emocional. Por outro lado o homem, não raras vezes, pratica o sexo dissociado do afecto, por isso a infidelidade nem sempre implica infidelidade emocional.”

Mas as mulheres que atraiçoam são mais penalizadas dado que ” são ainda tratadas como posse do homem, competindo-lhes o papel de dominadas e a função de garantir a honra do marido.” No entanto, lentamente, as mentalidades têm estado a evoluir pois as mudanças sócio-econômicas, como o acesso cada vez maior das mulheres ao ensino e ao mundo do trabalho têm contribuído para alterar esta maneira de pensar machista.

FONTEActiva Sapo
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