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Um amor com quem não se pode dividir tudo é o mesmo que nada

E quando chegar a hora, quando meu caminho der na porta de uma pessoa boa que vá reconhecer em mim o seu amor, ela há de perceber que comigo poderá dividir tudo quanto sente. O que dói e o que alivia, o que aflige e o que anima, o que assusta e o que serena. Tudo. Tanto quanto eu mesmo hei de partilhar com ela o que passar aqui dentro.

Se o amor é um exercício de liberdade, de que serve amar alguém ao lado de quem eu não posso ser livre para falar o que sinto? Escolho amar uma pessoa e caminhar ao seu lado para me libertar. Ou prefiro ficar só.

De todas as benesses de sentir amor por alguém, para mim a mais bonita é a liberdade de dividir tudo com ele o que nos for preciso, urgente, vital ou tão somente tudo aquilo que se possa ou se queira revelar. Sem isso o amor é nada. Sem a intimidade de contar a quem amamos tudo quanto nos fere, alegra, preocupa ou angustia, seremos nada senão meros mal-amados evitando o julgamento inevitável, conformados de que a pancada virá de quem devia nos acolher.

O mundo é por demais habilidoso nas artes da variação! Hoje amanhece doce, carinhoso, enfeitado de notícia boa. Amanhã se torna hostil, amargo, aborrecido. Esse bate e assopra desacorçoa a gente, provoca sentimentos conflitantes que fazem mal se os guardamos aqui dentro feito segredos. É preciso dividi-los com alguém. Se for com o amor da gente, melhor.

Se o amor é um exercício de liberdade, de que serve amar alguém ao lado de quem eu não posso ser livre para falar o que sinto?

Não quero esconder nada nem ser obrigado ao que quer que seja na companhia de um amor. Escolho amar uma pessoa e caminhar ao seu lado para me libertar. Ou prefiro ficar só.

Em toda história de amor saudável, tem coisa que a gente não quer dividir, mas se quisesse poderia. Tem coisa que a gente só não divide porque não quer e ser livre é isso mesmo.

Não querer dividir é permitido. Não poder dividir é diferente. Impensável. Um amor com que não se pode dividir tudo é o mesmo que nada.

Aqui entre nós, ter por perto alguém que não me dê nada nem aceite o que eu tenho para dar é burrice. Eu prefiro ficar bem longe.

André J. Gomes

http://www.revistaletra.com.br/ Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.

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