Já sentiu raiva de si mesmo por sentir raiva de tudo?

Gisele Lacorte

Você com certeza já sentiu raiva. Todos nós sentimos, uns mais, outros menos. Mas sentimos. Sentir raiva é natural e saudável. Aquele momento de raiva pode ser o estopim para uma tragédia, ou para a criação de algo novo e revolucionário. A escolha de como utilizá-la, de uma forma ou de outra, dependerá de como seus pais trabalharam a sua inteligência emocional na infância.

Entender que sentir raiva é uma oportunidade de aprender mais sobre as nossas necessidades internas é o começo para uma transformação efetiva, do que você pensava que a raiva gera, e o que ela gera em você realmente.

Aqueles que buscam o autoconhecimento sabem que todas as emoções precisam ser sentidas integralmente para que elas possam ser ressignificadas. Agindo assim, você poderá sentir a raiva sem que precise machucar, nem agredir ninguém.

Sinta-a sem a fúria do ódio, deixe-a aflorar, ela é uma emoção muito importante, porém, não deixe que ela te contamine a ponto de se transformar em um sentimento que possa causar mal a você ou a alguém, ou seja, não deixe que ela evolua para uma agressão ou violência.

Não sabe como fazer isso?

Aprenda a lidar com a raiva de uma maneira positiva, acredite, ela poderá te beneficiar.

A raiva é uma emoção que está relacionada a potência. Quando sentimos raiva ficamos cheios de energia, totalmente voltados a ação. Então podemos dizer que a raiva é uma fonte de energia e um combustível para que possamos ser motivados a ação.

Você conhece alguém que na hora da raiva consegue ficar parado?

Quando a raiva nos acomete, sentimos a sua manifestação física, especialmente nos braços e mãos, pernas e pés e nos maxilares, até por isso sentimos a necessidade de esmurrar, chutar, bater e morder. Notem o comportamento de uma criança com raiva, elas logo partem para a ação.

Uma criança com raiva, geralmente,se joga no chão, berra, esperneia, bate, morde, xinga, causando, muitas vezes, incômodos sociais e um mal estar nos pais, que não sabem o que fazer com aquele “pequeno monstrinho” que surge nesses momentos de descontrole emocional, e na maior parte das vezes, na boa intenção, e na tentativa de educar a criança, tentando a proteger de si mesma, os pais acabam a ensinando a bloquear está emoção, impedido assim que esta criança aprenda a lidar com algo muito importante.

Os pais não sabem, mas estão causando um mal a essa criança.

Não devemos impedir que a criança tome conhecimento dessa emoção, é preciso que ela aprenda a lidar com esse estado interno.

As raivas bloqueadas ficam armazenadas em nosso corpo, e são responsáveis pelo acumulo de tensões (imagina o esforço que o organismo faz para conter um impulso tão potente?). Quando tentamos conter a raiva e escondemos nossa emoção, materializam-se doenças psicológicas e físicas, e a constante tentativa de inibir a raiva, poderá ter consequências na vida adulta, formando um adulto apático, e até depressivo.

Isso mesmo, o esforço repetitivo em controlar a raiva poderá ocasionar quadros de depressão gravíssimos. Já na vida adulta, essa criança que foi impedida de vivenciar e entender suas emoções de maneira efetiva, acaba por se transformar em um adulto descontrolado, que sofre com surtos de raiva que podem acarretar inúmeros problemas em sua vida pessoal e profissional. Se tornam pessoas que às vezes aparentam uma calma descomunal, mas que em momentos de tensão, ou pressão, explodem e vomitam seu lixo interno em cima de quem aparecer pela frente.

O que devem fazer os pais no momento em que a criança resolve expressar sua raiva?

É fato, pais que aprenderam a lidar com a própria raiva estão mais aptos a lidar com a raiva de seus pequenos. Mas nem todos os pais sabem lidar com esta emoção porque, muitas vezes, também foram criados por pessoas que não sabiam, e isso gera um ciclo de déficit emocional que atravessa gerações.

É difícil para um pai ou uma mãe ver seu filho se jogando no chão em um ambiente público, gritando, esperneando, mas, é necessário que os pais não intervenham neste momento, e que deixem a criança expressar toda a sua emoção, é claro, com pequenas intromissões ponderadas, mas que mantenham um distanciamento, se mantenham aparentemente indiferentes, e não interfiram com frases do tipo: “Que feio!”, “Olha!”, ‘Está todo mundo olhando!”, “Você está louca?”, “Vou te colocar de castigo! ”

Sabemos o tanto que é difícil para muitos adultos se manterem calmos nesse momento, mas é necessário, ao invés de chegar impondo agressivamente para criança e criticando a sua atitude, os pais devem abaixar na altura delas e simplesmente dizer: Eu entendo o que você está sentindo, eu também já senti isso, é normal, chore o tanto que precisar, mas aquilo que você quer, deve ser conquistado com uma atitude diferente. E quando essa raiva passar, voltaremos a conversar.

Parece simples, mas exige muito esforço psicológico dos pais. Em compensação, esses pais estarão contribuindo para a formação de um adulto que, por conta das suas vivencias emocionais não interrompidas, se formou forte e desenvolveu uma inteligência emocional que lhe ajuda, diariamente, a entender seus processos internos de maneira saudável, atitude essa que lhe proporcionará uma sensação de plenitude e felicidade, bem maiores, do que aqueles que foram impedidos de sentir.

Aprenda a canalizar a raiva de uma maneira positiva e a utilizar como fonte de energia que gerará potência para realizar uma ação transformadora em sua vida

Mandar a raiva para o endereço certo é a melhor solução. Aqui estão algumas opções seguras para lidar de forma mais positiva com a raiva.

1- FAÇA TERAPIA

O conselho que nós, psicólogos, sempre damos a quem foi impedido de expressar a sua emoção plenamente durante a infância é: Procure um profissional e faça terapia!

A terapia é o único ambiente seguro para que possamos falar, xingar, gritar, espernear, socar, esmurrar e expressar a raiva retida no corpo de maneira saudável e produtiva! Quando liberamos a raiva de maneira saudável, ganhamos vida, tônus musculares, os olhos brilham e o espaço antes ocupado pela raiva começa a ser liberado para receber sentimentos de amor, compaixão, empatia e perdão.

Em um ambiente terapêutico poderemos revisitar cenas, imagens, situações que nos causaram muita raiva e poderemos expressa-las para o endereço correto. O que significa, muitas vezes, tocar em antigas feridas para que possamos ressignifica-las.

Se temos consciência de que somos explosivos, e que essa raiva que sentimos acaba por trazer sofrimento, tanto a nós quanto a quem convive conosco, e não tomamos essa decisão de buscar ajuda profissional, acabamos jogando a nossa raiva do passado em pessoas do presente, que nos remetem a uma dor que já existia dentro de nós há muito tempo.

Ou seja, acabamos, constantemente, despejando nossa dor em quem não tem nada a ver com ela. E depois nos arrependemos, nos sentimos em constante culpa e nos deprimimos com peso na consciência.

Por tanto, busque ajuda profissional, você não é louco porque está fazendo terapia, loucos são aqueles que não buscam apoio, mesmo quando sabem que estão fazendo mal aos outros.

2- PRATIQUE ESPORTES

Quem está consciente de que possui uma incapacidade de entender as suas emoções internas e que constantemente se vê em situações de risco, que costuma agredir verbalmente, e até fisicamente os outros e que só resolve os problemas a base da violência, deve adotar em seu cotidiano, a prática de atividades físicas como um remédio curador.

O corpo em movimento, permite uma descarga da raiva residual que ainda está no organismo. Lutas, corridas, natação… qualquer atividade de grande impacto e gasto energético poderá te ajudar a colocar a energia da raiva em movimento! Depois da atividade física, você vai sentir um aumento da sua criatividade e da vontade de realizar algo positivo em sua vida. Essa é a fonte da energia da raiva bem canalizada.

3- COLOQUE OS SEUS SENTIMENTOS NO PAPEL

Escrever sobre a raiva que você sente também pode ajudar muito, já que a escrita também é uma forma de descarga, organizadora dos pensamentos, e das emoções.

4- MEDITE

A respiração e a meditação nos ajudam a nos distanciar por um tempo das situações que nos afligem, e esse distanciamento é necessário para que, enfim, passamos a entender a diferença entre sentir a raiva, e expressa- lá. Tomando consciência disso, você passa a vigiar para sentir de maneira positiva e saudável.

A meditação ajuda no autocontrole, já que a pessoa aprende a ampliar suas possibilidades de resposta a essa emoção tão potente que conhecemos como raiva. Com o distanciamento da situação e da pessoa que nos causou a raiva podemos primeiro entender este sentimento internamente, para depois escolher a forma como desejamos expressá-la.

Você não deve reprimir a raiva, você deve aprender a canalizá-la de maneira saudável para atividades que exigem de você maior potência no seu dia a dia.

Aqueles que possuem uma raiva descomunal dentro de si acabam se tornando ótimos esportistas profissionais, pois aprendem a canalizar a raiva e, retirar dela, o que ela tem de melhor, a explosão e a potência para se ganhar um campeonato ou uma competição, por exemplo.

Quando aprendemos efetivamente a lidar com a raiva que sentimos, identificamos mecanismos que podem nos fazer sair do estado aflitivo logo que ele se manifesta. Esses mecanismos são particulares e são trabalhados em terapia, mas podem ser descobertos por cada um de nós, se nos dedicarmos a nos conhecer melhor.

Como escritora e psicóloga, sempre que sinto raiva, me permito sentir, mas não vomito minhas insatisfações agressivamente porque aprendi a transformar essa raiva em potência criativa.

Quando aprendemos isso, somos capazes de ter melhores relações e evitamos maiores desgastes emocionais. Paramos de tentar consertar os estragos que criávamos em segundos de atitudes impensadas.

Lembre-se: Dificilmente faremos algo inteligente na hora da raiva mal canalizada.
Aprenda: Fale sobre a sua raiva, mas evite falar com raiva! Isso pode mudar a sua vida!

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS







COMENTÁRIOS




Gisele Lacorte
Psicóloga clínica, terapeuta corporal, consteladora familiar e orientadora profissional. Escritora e facilitadora de workshops, palestras e grupos terapêuticos que visam auxiliar as pessoas a reconhecer e ativar sua potencia de realização e alegria de viver através da reconexão com a sua verdadeira essência, do profundo cuidado com o sentir e com o poder de expressar suas emoções mais genuínas. Desenvolve trabalhos personalizados para grupos e empresas.