Sente que tem dedo podre? Entenda o que a vida quer te dizer!

Marian Koshiba

Toda vez que vemos alguém (ou nós mesmos) em sucessivos relacionamentos mal sucedidos, seguindo um padrão muito parecido, logo pensamos naquela expressão de ter “dedo podre”. Por muito tempo acreditei ser isso uma verdade inegável.Hoje? Sei que a frase tem sim um pouco de razão. Mas há um quê de explicação em tudo isso: é um grito da vida para te fazer perceber aquilo que você está se recusando a enfrentar e aprender.

Num dos livros do famoso guru Sri Prem Baba, algumas passagens me marcaram. Uma delas é de que as “relações são a escola da vida”. A outra, é a explicação de que, se alguns padrões se repetem em nossa vida por meio dos relacionamentos, significa que há alguma lição que precisamos aprender (e estamos nos negando a absorver).

Essa reflexão faz cada dia mais sentido quanto mais observo a mim e às pessoas próximas. E eu deixo claro que essa ideia se aplica não somente a interações amorosas. Pense em relações lato sensu, desde as amizades até as interações profissionais.

Observe os padrões de problemas que você tem enfrentado nas suas relações: sempre se envolve amorosamente com pessoas confusas emocionalmente? Pessoas que não enxergam seu valor? Sempre se vê em desafios com relações de trabalho em que não lhe respeitam devidamente? Constantemente se vê traído na confiança pelas suas amizades?

Quase todo mundo já ouviu uma vez na vida a máxima de que as “relações são nossos espelhos”. De certo modo são mesmo. Refletem algo presente em nós mesmos que não estamos enxergando/lidando, ou são circunstâncias que querem fazer com que você aprenda uma lição essencial (lição que você tem se recusado – consciente ou inconscientemente – a aprender).

O quanto as pessoas confusas e não prontas para um relacionamento não refletem uma confusão e um despreparo seus? O quanto atrair pessoas que não te valorizam devidamente é uma tentativa da vida de te fazer entender de uma vez que, você, antes de tudo, é quem tem que aprender a se valorizar de verdade? O quanto sucessivos colegas abusivos de trabalho não querem te ensinar que você precisa saber se colocar, se posicionar, se defender de maneira mais assertiva? O quanto as quebras sucessivas de confiança não querem evidenciar uma necessidade de seleção mais cautelosa – para quem e quando abrir sua vida e todo o coração?

Eu tenho pautado minha vida, pensando nos aspectos de desenvolvimento pessoal e espiritual, no mantra de que a “conta sempre chega”. E chega mesmo. Agora, barata e mais simples, ou mais tarde, com juros e correção monetária, mas as lições que viemos aprender na nossa jornada são colocadas diante de nós quantas vezes forem necessárias até aprendermos. Quanto mais empurramos para debaixo do tapete, mais difícil vai ficando recolher depois toda aquela montanha de resíduos. Cabe a nós ter a clareza de perceber a evolução que a vida está nos pedindo, e encarar as feridas para aprendermos as lições o mais rápido possível.

E nesse momento aproveito para mais uma provocação (assunto pra desenvolvimento maior em outro texto): você exclama sobre o quanto a pessoa X ou Y foi péssima e nociva em sua vida, como aquela relação te devastou. Não, nada justifica ou tira a responsabilidade pelas condutas incorretas ou tóxicas do outro. Mas pensando sob o viés construtivo, sobre a parcela da vivência que lhe cabe e que pode ajudar em sua evolução, faça o exercício de esmiuçar a relação, quais as circunstâncias que fizeram aquela dinâmica acontecer em sua vida, e o que você pode aprender e até rever, em você mesmo.

Quem lê meus textos sabe que eu peco pela necessidade de elucidação, e por isso venho com meu exemplo pessoal: tive uma primeira relação amorosa complicada em diversos aspectos. Por exemplo, eu agia como uma pessoa que eu não era, uma pessoa toda “perfeita” dentro de inúmeros padrões vindos do meu par. Culpei muito apenas o outro lado (sim, o outro teve imensa responsabilidade também), mas recentemente percebi que não havia como eu atrair uma pessoa diferente pra minha vida numa fase em que eu mesma, inconscientemente ou não, estava vivendo uma existência inteira querendo agradar os demais, atendendo a supostos padrões de perfeição e expectativa do mundo todo, mesmo que aquilo me massacrasse internamente. E as inúmeras paixões que tive com pessoas totalmente confusas, despreparadas para se envolver, ou que não enxergavam o meu valor ? Eu praguejava os céus por esse azar, até perceber que, no meu íntimo, pela minha história deturpada de relações, eu mesma me sentia sem condições plenas de me envolver e confiar? O quanto eu percebi que eu atraía essas pessoas (e pior, as mantinha) porque eu mesma ainda não tinha entendido que preciso primeiro aprender a me amar, a me valorizar, a me respeitar? Aquela frase “a gente aceita o amor que acha que merece”, do filme “As vantagens de ser invisível” é muito real.

Assim, a expressão “dedo podre” não deixa de ter um fundo de razão, pois nesses padrões de relação, muitas vezes há algo de nós que de certa forma atrai aquelas circunstâncias com o intuito de nos fazer crescer, de nos fazer enxergar aspectos nossos com clareza, para escancarar, por meio da relação com o outro, facetas nossas que precisamos encarar e evoluir. Não é coincidência.

O maior equívoco da expressão “dedo podre” é nos fazer acreditar que não temos controle desses encontros, que não podemos mudar esse padrão, que tudo é uma circunstância de extremo azar e acaso, que devemos nos lamentar como vítimas à mercê dessas fatalidades. Não. Temos sim, como alterar esses padrões. Mas antes precisamos ouvir o conselho discretamente soprado em nossos ouvidos pelo universo por meio das nossas relações, estufar o peito de coragem e rever o que clama pra ser revisto em nós mesmos, para que isso reflita, por fim, em nossa vida externa.

Seu dedo aponta mesmo é para o que há de desafiador a ser enfrentado dentro de você mesmo.

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Marian Koshiba
Formada em Direito, escritora por necessidade de alma, cantora e compositora por paixão visceral. Só sabe viver se for refletindo sobre tudo, sentindo o mundo à flor da pele. Quer transmitir tudo que apreende (e aprende) por todas as formas criativas possíveis.