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Sempre tem alguma coisa pra nos salvar

A gente acumula muita coisa aqui dentro do peito, inclusive o que não deveria. Palavras não ditas, momentos doloridos, sofrimento afetivo, lembranças que ferem. Nem tudo a gente consegue por pra fora no momento certo e, por isso, os pesos emocionais se avolumam com o tempo.

Não existem dias perfeitos do início ao fim, não existem pessoas perfeitas da cabeça aos pés, nem empregos totalmente sadios. Não existem filhos que andem no caminho exato que os pais escolhem, não existem planejamentos que aconteçam sem percalços. Não existe caminhar sem tropeço, amar sem descompasso, porque nem haveria luz se não houvesse a escuridão.

Ninguém sorri o tempo todo com sinceridade, a vida não acontece ao som de violinos ou sob pétalas de rosas. A vida costuma desafinar e lotar as passagens de espinhos. Porque não há felicidade perene, completa, absoluta, uma vez que, se alcançássemos a plenitude total, qual graça haveria em continuarmos a partir de então?

A gente vai sendo feliz e colhendo lembranças acalentadoras enquanto buscamos a felicidade que completa os nossos sonhos. A felicidade se baseia em momentos de alegria que pontuam fases de nossas vidas. Sem mais nada a se alcançar, a vida chegaria, então, ao fim. A gente segue porque há incompletude, porque há vazios a serem preenchidos, porque ainda há muito pela frente. Porque a gente tem uma fé absurda.

E, nessa caminhada, não deixaremos de atravessar escuridões, dores e perdas. Nem tudo dá certo, nem todo mundo fica junto, nem todo amor tem final feliz. Além disso, a felicidade não depende somente de nós: somos seres gregários e o que acontece com quem está ao nosso lado também afeta as nossas vidas. Como ser feliz, por exemplo, quando alguém que amamos sofre?

Por essa razão, uma das formas de sobreviver é termos uma válvula de escape, alguma coisa que emocione os nossos sentidos, que nos ajude a digerir o que dói, algo que filtre a nossa carga afetiva, ajudando-nos a manter a esperança aqui dentro. Tem gente que pratica esporte, tem gente que toca música, tem gente que vai à igreja, tem gente que pratica caridade, tem gente que canta, pinta, dança. Tem gente que tem uma pessoa que escuta. E tem gente que, assim como eu, escreve. Eu dedilho meu piano, mas a escrita me salva. Minha escrita é afetiva, é terapêutica.

Minha escrita é meu grito, meu silêncio, minha dor, minha solidão. Minha escrita é catarse, é purgação. Minha escrita é ida e volta, medo e escuridão. Escrevo para não me perder, mas nas palavras me perco e me encontro, e me desfaço e me componho. Escrevendo, eu oro, eu morro, eu renasço. Somente a escrita me salva do cansaço, do viver parado, do vazio afetivo, do peso errado. Dos socos da vida.

Todo mundo merece ter algo a que se agarrar, em meio às tempestades emocionais. Por mais que tudo pareça perdido, eu creio que sempre haverá alguma coisa para nos salvar. Eu tenho a escrita. Minha escrita tem fé, tem afeto e tem amor. Tem Deus. Minha escrita sou eu, sangrando e cicatrizando. Bendito aquilo que te emociona. Bendita a escrita, que me salva da vida, em vida.

Prof. Marcel Camargo

Graduado em Letras e Mestre em "História, Filosofia e Educação" pela Unicamp/SP, atua como Supervisor de Ensino e como Professor Universitário e de Educação Básica. É apaixonado por leituras, filmes, músicas, chocolate e pela família.

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