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RUBEM ALVES JÁ DIZIA OSTRA FELIZ NÃO FAZ PÉROLA

O que você tem feito com suas dores? Quais são as suas cicatrizes? Quem é você depois das tempestades da vida?

Essas são algumas das perguntas que ficam subentendidas no livro “Ostra feliz não faz pérola” de Rubem Alves e que, a essa altura da vida, acredito que você já tenha lido e relido esse livro várias vezes, mas, caso não tenha, sugiro que faça o mais rápido possível, já que com uma sensibilidade extrema e um cuidado com as palavras como poucos tem, Rubem Alves leva o leitor a refletir e a encarar seu sofrimento como condição humana passageira e não como um martírio eterno.

Nas palavras do próprio autor, o título refere-se a: “A ostra, para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer. Sofrendo, a ostra diz para se mesma: preciso envolver essa areia pontuada que me machuca com uma esfera lisa que lhe tire pontas outras felizes não fazem pérolas. Pessoas felizes não sentem a necessidade de criar. O ato criador seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída. Por vezes a dor aparece como aquela coisa que tem o nome de curiosidade. Este livro está cheio de areias pontudas que me machucaram. Para me livrar da dor, escrevi”.

Sem usar uma sequência lógica na narrativa, Rubem Alves, logo no início de uma das crônicas demonstra como deveríamos lidar com as dores e com as opiniões alheias: “As ostras felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão…”. Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía.

E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada.

O pescador se alegrou, levou-as para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra. Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola.

Lição dada, a partir daí o autor trata de vários assuntos a partir da mesma temática: somos ostras que produzem pérolas. Dividido em onze capítulos temáticos (Caleidoscópio- de onde sai a crônica que nomeia a obra-. Amor, Beleza, Crianças, Educação, Natureza, Política, Saúde Mental, Religião, Velhice e Morte), os textos abordam a beleza produzida através da dor, da morte e de situações extremas de dificuldades. Autores como Nietzsche, Bach, Cecília Meirelles e até Jesus Cristo são citados por Rubem porque além de admirá-los, acreditava que os mesmos pregavam o autocontrole e o amor próprio acima de tudo.

Rubem Alves é escritor polêmico que divide opiniões. Fato incontestável. Se por um lado apresenta a religião em suas obras, está longe de defendê-la como verdade absoluta. Se mostra o amor como saudável, apresenta o seu lado perigoso na mesma intensidade. Para o autor, tudo tem dois lados, tudo leva à uma aprendizagem e tudo serve para alguma coisa. Basta estarmos dispostos a aprender e nos tornamos melhores diante das piores adversidades.

“Nós não vemos o que vemos, nós vemos o que somos. Só veem as belezas do mundo, aqueles que têm belezas dentro de si”.( Rubem Alves)

Pamela Camocardi

A literatura vista por vários ângulos e apresentada de forma bem diferente.

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