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Quem nunca precisou, pelo menos uma vez na vida, lavar a alma?

Quem nunca precisou, pelo menos uma vez na vida, lavar a alma?

Quem nunca sentiu uma necessidade iminente de dar uma guinada, chutar o pau da barraca, fazer as malas, colocar a casa de cabeça pra baixo?

Quem nunca precisou dar um grande passo, às vezes até maior do que a perna, para iniciar uma fase de mudança que já não podia mais ser evitada?

Quem nunca levantou a poeira, desestabilizou sentimentos velhos que estavam incrustados nas paredes do coração, fez uma faxina geral, olhou nos olhos de uma dor, de uma história mal vivida, mal resolvida, separou o que vai para a rua, o que vai para o lixo reciclado e o que realmente fica?

Quem nunca resolveu doar para a campanha do agasalho sentimentos que estavam jogados no armário?

Para mim, lavar a alma significa ter a consciência e a coragem de se desapegar de sentimentos que às vezes até são fortes e intensos, mas estão há tempos estagnados, causando mais angustias do que alegrias, trazendo mais problemas do que soluções, criando desconforto, frustração e atolando nosso coração de tal forma que impedem a entrada de novas luzes e energias mais leves e mais prósperas.

Pode ser que para lavar a alma você precise de um ombro amigo, de um pacote de lenços de papel, de uma chuva ou uma cerveja gelada, de uma conversa franca consigo mesma, de uma viagem longa de ônibus, de viver uma outra paixão (não necessariamente com uma pessoa).

Pode ser que você precise de uma caneta e um papel, uma barraca de camping, de uma cachoeira, um feriado prolongado e muitas horas de sono, uma rotina de caminhada, uma nova empreitada, uma repaginada no visual.

Pode ser que você precise aprender novos conceitos, aceitar que a solidão também é boa e bonita, que nunca é tarde para recomeços, pode ser que você se lembre daquele velho sonho de vida e finalmente comece a brincar com ele.

Pode ser que lavar a alma demande paciência, não é de um dia para o outro que nosso corpo se desimpregna daquilo que nosso pensamento considerava tão forte e vital. Pode ser que você tenha crises de abstinências e recaídas e que precise se perdoar muitas vezes, mas também ter vontade de seguir em frente.

Pode ser que para lavar a alma você precise ouvir mais a sua intuição do que as verdades do mundo.

Mas, tenho certeza, que uma bela lavada na alma descortina realidades mais bonitas.

E quando, finalmente, você estiver com a alma limpinha em folha, espero que não tenha medo de se sujar, espero que tenha vontade de se abrir para o que a vida oferece, e entre na dança de novo. Espero que entenda que tudo o que aparece no nosso caminho é bom, serve para o nosso crescimento ou para a nossa satisfação.

E aí, eu só digo o que cantou o mestre Vinícius de Moraes:

‘É meu amigo, só resta uma certeza é preciso acabar com essa tristeza, é preciso inventar de novo o amor.’

Clara Baccarin

Clara Baccarin escreve poemas, prosas, letras de música, pensamentos e listas de supermercado. Apaixonada por arte, viagens e natureza, já morou em 4 países, hoje mora num pedaço de mato. Já foi professora, baby-sitter, garçonete, secretária, empresaria... hoje não desgruda mais das letras que são sua sina desde quando se conhece por gente. Formada em Letras, com mestrado em Estudos Literários, tem dois livros publicados, o romance ‘Castelos Tropicais’, e a coletânea de poemas ‘Instruções para Lavar a Alma’. Seus poemas foram musicados e estão no CD – ‘Lavar a Alma’. Esta prestes a lançar seu terceiro livro, agora de crônicas – ‘Vibração e Descompasso’.

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