Quando não se consegue manter relacionamentos e a solidão se torna um esconderijo

Tatielle Katluryn

Eu sei como é estar sozinha dentro de um quarto escuro e o resto da casa estar silenciosa, pois ali não a ninguém além de você. Então você sente liberdade para poder chorar alto, dizer a Deus o que estava preso na garganta, até soltar uns gritos para desafogar a alma que estava afundando num oceano de lágrimas. Se sente livre para ser você mesma. Agora não precisa de máscaras, sorrisos falsos, alegria só de aparência. Não precisa se esforçar para conversar com as pessoas, nem manter uma postura adulta de seriedade e comprometimento. Você é apenas quem sua alma quer ser. Uma pessoa um tanto triste, medrosa e preocupada com o futuro. E é boa a sensação de estar sem alguém em volta vendo seu castelo desmoronar e você dançar sobre as ruínas. Não ter plateia é, sem dúvida, a melhor parte e faz com que tudo flua sem constrangimento.

Todavia, isso pode se tornar um vício. Sei disso porque eu passei a desejar ter todos os dias horas e mais horas de solidão absoluta. Eu não queria ninguém ali. Apenas eu e o Espírito Santo de Deus. Queria não ouvir nenhum barulho além do som da minha respiração entrecortada no choro. Queria que as pessoas se mantivessem distantes o máximo possível, pois eu não me sentia bem perto de outros seres humanos, parecia que eu havia desaprendido a me relacionar. Não sabia mais manter uma conversa amigável, não me surgia na mente assuntos ou perguntas a serem feitas, e eu só queria me livrar dos outros para ficar sozinha. Pois na solidão eu sentia aquilo que o mundo me roubava: paz. Eu finalmente poderia ficar calma, regar minha paciência e pedir ao Espírito Santo que seu fruto florescesse em mim.

E eu achava que estava tudo bem, pois eu não estava ali simplesmente por preguiça ou me escondendo das pessoas, eu estava naquele lugar por causa de Deus. Assim passei a usar o Senhor como justificativa para ficar cada vez mais sozinha. Eu falava tanto com Ele que nem chamava mais de oração, pois parecia uma palavra formal demais para o que tínhamos, e chamava só de conversa. Nós conversávamos por horas e eu não queria sair do meu lugar secreto. Nesse tempo, aprendi muito sobre mim e descobri partes de Deus que não sabia que existiam, e finalmente estava conhecendo a Jesus e vi que o Espírito Santo é uma Pessoa. Desenvolvi também o meu propósito e aprendi mais sobre minha vocação especial que recebi de Deus. E como eu convivia tanto com Jesus passei a parecer mais com Ele e a buscar seu caráter. Portanto, posso dizer que eu estava muito bem e feliz, mas tinha um problema: eu não queria mais saber das pessoas.

Foi quando os poucos amigos que tenho começaram a demonstrar insatisfação com meu afastamento. Um se sentia culpado e queriam saber o que fez para eu estar assim. Outra foi sincera e disse que eu estava a perdendo aos poucos. Eles sentiam minha falta e eu não me dava conta disso. E, nesse ínterim, passei também a ficar mais distante de igreja e quase não tinha comunhão com os irmãos da mesma fé que a minha. Então o Espírito Santo me ensinou que Ele não me criou para o isolamento e sim para o relacionamento. Que eu precisava das pessoas e que se eu continuasse a me afastar delas, acabaria totalmente sozinha e sem alguém para me socorrer quando necessitasse. Mas eu confessei que não sabia mais me relacionar, que para falar com os outros demandava muito esforço e empenho, eu me via sem forças e só queria que Ele me deixasse continuar assim.

Mas como o Espírito Santo é meu Melhor Amigo, e Ele mais que qualquer um quer meu bem, me aconselhou a praticar o relacionamento. Disse que quanto mais eu tentasse falar com as pessoas, mais fácil iria ficar para mim. Porém, confessei que tinha medo da rejeição, que eles poderiam não me querer, que eu ficaria sozinha e não teria com quem contar. Ele me disse que eu deveria me permitir ser amada e parar de colocar barreiras que eu mesma criava para poder me afastar. Foi quando eu decidi dar uma chance. Me reaproximei das pessoas, pedi perdão por meu comportamento e fui ajudar quem estava passando por algo parecido. Assim as resistências foram sendo vencidas e vi que o salmista tinha razão quando declarou que quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união. E o Espírito Santo me mostrou com clareza o porquê de sermos criados. Enxerguei que viver sem amor é morrer aos poucos e que eu preciso me relacionar com os outros para me tornar a humana que fui chamada para ser. Assim no deserto solitário aprendi a valorizar a companhia das pessoas e a de Deus.

Aprendi também que solidão não é frescura ou bobagem. Mas sei que ela pode ser criada pela própria pessoa ou quando alguém é deixado contra sua vontade nessa situação. Que pode se sentir sozinho mesmo tendo pais, irmãos, amigos, namorado, marido. Mesmo quando possui colegas de classe ou de trabalho, a igreja, os vizinhos. Pois a solidão não é provocada pela ausência de pessoas, ela acontece quando alguém mesmo estando acompanhado ou sem ninguém não se sente amado. Você pode estar no meio das pessoas e até fingindo um sorriso, mas no fundo sente que seu lugar não é ali, que eles não te amam de verdade e que não se importam como deveriam. E como se sente amado apenas por Deus não quer ninguém mais além Dele. Porém, a solidão arde quando um coração se sente vazio de amor quando o que ele mais quer é ser amado. Mas não amado de qualquer forma, porém amado com sinceridade, com cuidados, atenção e sendo demonstrado por meio de atitudes que de fato é importante. E a solidão dói na alma porque a pessoa tem a necessidade de possuir relacionamentos.

Mas o problema maior nisso tudo está no fato de eu ter acreditado nas mentiras que o inimigo me contou. Ele que me convenceu que era melhor eu ficar sozinha e que eu não seria amada por ninguém caso confiasse em alguém. E ele faz isso todos os dias com milhares de pessoas. Ele tenta nos afastar dos outros e de Deus. Ele nos quer sozinhos, isolados, no silêncio, para poder plantar em nós suas mentiras e assim nos destruir. Por isso, devemos cada vez mais dar ouvidos ao que o Espírito Santo diz e jogar fora toda e qualquer mentira, culpa, acusação e histórias que dizem que não seremos amados porque não merecemos. Porque mesmo as pessoas sendo falhas, imperfeitas, errantes e que podem nos ferir gravemente, merecem ser amadas. Não podemos simplesmente nos fechar dentro de nós mesmos e nos recusarmos a sair. Devemos praticar o perdão e o amor ao próximo. Devemos nos permitir ser amados e que as pessoas nos conheçam além das aparências. Temos que tentar reatar os laços rompidos, os relacionamentos desfeitos e abraçar quem nunca mais tocamos.

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Tatielle Katluryn
Tatielle Katluryn, florescida em 1996, com sangue Maranhense e coração pertencente ao céu. Sou cristã e estudante, apaixonada por livros do séc. XIX e Astronomia. E Deus me chamou para falar aquilo que Ele quer dizer as pessoas, para levar a paz a corações tão ansiosos quanto o meu. É tão linda a forma que Ele me cuida enquanto me usa para fazer sua vontade e só tenho a agradecer por tamanho amor que me consertou sem eu merecer.

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