Na imprensa, na televisão e nas mídias sociais assistimos uma avalanche de desgraças e sofrimentos, que são reflexos do nosso dia a dia. Mas, por que o sofrimento do outro não nos incômoda?

Talvez uma das respostas para essa questão se encontra em nossa infância, pois éramos desencorajados a não mostrar a dor. Os adultos nos diziam: “deixa de ser chorão. ” É por isso quando as crianças começam a chorar em público, os pais não querem incomodar os outros. Esquecendo-se de buscar entender a origem do pranto dos seus filhos.

Observamos que existem adultos que têm vergonha ou medo de chorar na presença de outrem, em razão de acreditarem que seus sofrimentos podem ser encarados como um sinal de fraqueza. O choro é algo que precisa ser escondido ou abafado.

A outra resposta é que algumas pessoas gostam de comemorar os sofrimentos dos outros e de se divertir com os maus-tratos ou o abandono de animais. A insensibilidade transformou esses indivíduos em criaturas sem alma e sem coração, isto é, os “necrófilos” do século 21.

O que mais nos assusta na indiferença humana é a sua capacidade gélida de ignorar a existência de moradores de rua, da fome e da violência, que atingem parcelas expressivas da população. Além disso, determinados governantes desprezam a realidade do desemprego, das habitações subumanas e de tantas outras mazelas que geram sofrimento aos empobrecidos.

Esquecemos que cada pessoa tem suas dores, seja ela rica ou pobre, famosa ou anônima. Ignoramos que somos todos pertencentes à mesma família humana e podemos ser dilacerados por notícias falsas, críticas desonestas, atitudes preconceituosas, abusos, decepções, perdas de entes queridos, etc. Tudo isso pode ser minimizado aos olhos da nossa sociedade líquida.

A compaixão é um sentimento poderoso que nos permite ajudar o próximo a superar esses problemas, inclusive com aqueles que praticaram ações reprováveis, já que podem ter lhes faltado dignidade ou educação. O Papa Francisco enfatizou que a compaixão não é o mesmo que a pena, e concluiu: “a compaixão envolve você com a pessoa que sofre, remove as vísceras e te leva a aproximar-se dessa pessoa”.

Afinal não interessa o motivo do sofrimento, porque toda a pessoa humana sente dor, é uma dor igual a nossa. Isso é tão óbvio, mas que precisa dito várias vezes. Bertolt Brecht tem um dizer que nos chama a atenção: “Que tempos são estes, em que temos que defender o óbvio? ”








Sociólogo e Psicanalista