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Podemos ajudar apenas pessoas que querem ser ajudadas

Por mais que tentemos nos envolver nos dramas alheios, ouvindo e amparando, cabe a cada um decidir se quer realmente sair do buraco ou continuar nele. Cabe a cada um escolher entre aceitar o apoio do outro ou continuar se lamentando. Cabe a cada um reinventar ou pelo menos tentar reinventar a própria vida ou passar anos e anos reclamando e sofrendo por tudo.

Sou contra a filosofia “cada um no seu quadrado”. Respeito quem pensa e age assim, mas pessoalmente considero um jeito egoísta de viver. Obviamente, cada um faz o que quer da vida e não invadindo a liberdade do outro, viver numa bolha é um direito. Por outro lado, nem sempre podemos ajudar as pessoas. Só podemos ajudar quem quer ser ajudado.

Por mais que tentemos nos envolver nos dramas alheios, ouvindo e amparando, cabe a cada um decidir se quer realmente sair do buraco ou continuar nele. Cabe a cada um escolher entre aceitar o apoio do outro ou continuar se lamentando. Cabe a cada um reinventar ou pelo menos tentar reinventar a própria vida ou passar anos e anos reclamando e sofrendo por tudo.

Algumas pessoas odeiam o trabalho que fazem, mas não buscam novas oportunidades. Outras insistem em manter relações amorosas infelizes. Algumas pessoas criticam severamente certos “amigos”, mas continuam se encontrando com eles regularmente e levando em conta a opinião dos mesmos.

Muita gente se recusa a aceitar a ajuda das pessoas que as amam. Muita gente se recusa a entender que precisam de ajuda, que não é apenas cansaço, que não é apenas uma fase, que não é falta de Deus. Que é falta de vida. Que é falta de lazer, de tempo para si. Que é falta de descanso, que é falta de tempo para se cuidar, para dormir, para se divertir, para rir, para jogar conversa fora, para ouvir uma música em paz, para se espreguiçar de manhã com calma.

Muita gente leva anos e anos para aceitar que precisa de ajuda profissional, que precisa de terapia. Terapia para si, terapia de casal, para os filhos. Sim, não é fácil perceber que somos autores de nossa vida e que temos responsabilidade sobre como reagimos àquilo que nos acontece. Não podemos impedir que as pessoas sejam cruéis conosco. Não podemos impedir que as pessoas nos machuquem, nos ironizem, nos abandonem, nos desprezem, mas por outro lado, podemos sim escolher entre sofrer eternamente ou superar. Permanecer no mesmo esquema doentio de vida ou tentar mudar.

Não temos culpa se nossos filhos têm um temperamento difícil, mas podemos aplacar este drama com uma educação mais rígida e um acompanhamento psicológico. Sim, crianças também sofrem com problemas psicológicos e precisam ser ajudadas. Não temos culpa por apresentarmos um temperamento mais depressivo, mas podemos pedir ajuda, tentar nos entender melhor, buscar formas de nos sentirmos mais animados.

Infelizmente, por muitos motivos, as pessoas temem as mudanças, mesmo que sejam para melhor. Infelizmente, quebrar paradigmas é tarefa árdua e assustadora para muitos. Muitos preferem sofrer com um drama conhecido a serem felizes com uma realidade nova. Ou simplesmente não acreditam em realidades novas. Sem falar que na nossa sociedade, o sofrimento é uma forma de distinção social. Tanto o bem-sucedido como o mártir ocupam o seu lugar de destaque. No meio, ficam aqueles que vivem a vida, sem grandes conquistas, mas também sem grandes dramas, vivendo um dia por vez.

Sílvia Marques

Viciada em café, chocolate, vinho barato, filmes bizarros e pessoas profundas. Escritora compulsiva, atriz por vício, professora com alma de estudante. O mundo é o meu palco e minha sala de aula , meu laboratório maluco. Degusto novos conhecimentos e degluto vinhos que me deixam insuportavelmente lúcida. Apaixonada por artes em geral, filosofia , psicanálise e tudo que faz a pele da alma se rasgar. Doutora em Comunicação e Semiótica e autora de 7 livros. Entre eles estão "Como fazer uma tese?" ( Editora Avercamp) , "O cinema da paixão: Cultura espanhola nas telas" e "Sociologia da Educação" ( Editora LTC) indicado ao prêmio Jabuti 2013. Sou alguém que realmente odeia móveis fixos.

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