Pessoas desconfiadas: a realidade que explica esse comportamento

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As pessoas desconfiadas nem sempre são assim por escolha. Muitas vezes, o peso de uma profunda traição ou decepção deixou uma marca nelas que as impede de se reconectar. Portanto, vivem com a obsessão de se proteger, de erguer muros e impor distâncias.

Por trás das pessoas desconfiadas estão a insegurança e os mecanismos das emoções que não deixam ser, que atrapalham e diminuem potenciais. É possível que o comportamento delas nos cause surpresa, e que a ideia de que “quem não confia não é confiável” surja em nossa mente. No entanto, é preciso entender como às vezes é complicado confiar 100% nas pessoas ao nosso redor.

Nenhuma solidão é mais profunda e dolorosa do que a falta de confiança. Aqueles que sofrem com isso, aqueles que usam esse comportamento esquivo, rígido e sujeito à frieza não são exatamente pessoas felizes.

Muitos desses perfis são o resultado de uma profunda decepção, traição, negligência de uma infância desprovida de apego e afeto. Quando a conexão com aqueles que amamos é quebrada de forma traumática, é difícil se reconectar esta bela palavra: confiança.

Nosso cérebro, como entidade social e basicamente programada para a conexão emocional, sofre quando não tem acesso à inter-relação, quando lhe faltam, em essência, laços fortes, geradores de espaços que nos fazem sentir cuidados, amados e valorizados. Se isso falhar, se não percebermos esse reforço positivo, nossa insegurança se tornará nossa maior carcereira.

Pessoas desconfiadas nem sempre são assim por escolha. Além do mais, esse tipo de perfil vive constantemente sob o véu do medo. Porque se há algo que elas temem, é se machucarem novamente. Portanto, não hesitam em erguer paredes ao seu redor e colocar detectores para que ninguém ultrapasse essa linha de autoproteção.

“A melhor maneira de saber se você pode confiar em alguém é confiando.”
-Ernest Hemingway-

As pessoas desconfiadas e o peso das emoções negativas

Em 1861, Charles Darwin escreveu uma carta a um amigo, uma daquelas tão especiais que mais tarde seria publicada no livro Autobiografia e Cartas Selecionadas (1881). Nela, ele literalmente disse o seguinte: “Hoje me sinto muito mal, me sinto estúpido e odeio todo mundo.” Esta frase – quase como o acesso de raiva de uma criança – foi marcada com ira, ressentimento e frustração, aspectos que mais tarde seriam analisados ​​pelo próprio Darwin.

Lembremos que o famoso naturalista e pai da teoria da evolução humana era muito curioso quanto ao mundo das emoções. A razão pela qual ele escreveu essa frase foi porque se sentiu traído por um colega. Ele havia perdido a confiança em alguém e estava ferido. Esse sofrimento se traduziu em intensas emoções negativas que o acompanharam por meses.

Um estudo realizado na Universidade de Amsterdã e na Universidade de Zurique encontrou evidências para apoiar uma ideia relacionada ao que Darwin havia experimentado. O neurologista Jan Engelmann descreveu esse mecanismo neural que define pessoas desconfiadas. De acordo com este trabalho, há pessoas que cronificam as emoções negativas decorrentes da decepção ou traição e isso, esse medo constante, as impede de voltar a confiar.

A amígdala, nossa sentinela do medo

Quando uma pessoa sofre na pele o peso da mentira, da decepção, do abandono ou da traição, ela teme, acima de tudo, passar pela mesma coisa novamente. É verdade que há quem enfrente e administre essas situações com eficácia. São aquelas pessoas que aprendem com o que aconteceu, mas que não ficam presas na emoção negativa, assumem o que viveram, viram a página e se abrem para outras experiências.

Pelo contrário, há outras que pairam no peso da negatividade, no “Eu me sinto estúpido e odeio todo mundo” que Darwin expressou em sua época. Esse tipo de situação é mediada principalmente por uma estrutura cerebral específica: a amígdala.

É ela quem coloca as pessoas desconfiadas em um estado de constante hipervigilância. Quase automaticamente, elas começam a associar quase todos os detalhes a uma ameaça.

Aplicam categorizações, valem-se de vieses, preconceitos e de um diálogo interno tão limitador e negativo que eles próprios acabam “embriagados” com suas próprias angústias e desconfianças extremas.

Não é fácil viver assim, neste território de total infelicidade.

O que podemos fazer se nos sentirmos incapazes de confiar nas pessoas novamente?

As pessoas desconfiadas costumam ficar presas em um círculo vicioso agonizante. Não conseguem mais confiar naqueles que aparecem no seu dia a dia.

Sua abordagem, seu comportamento e sua atitude geram mais rejeição ao seu redor. Ver como os outros se distanciam aumenta ainda mais seu desconforto e reforça mais uma vez o desejo de se isolar, de se proteger.

Então, o que pode ser feito nesses casos? Se respondermos a esse mesmo perfil, o que devemos fazer para nos reconectarmos verdadeiramente com as pessoas ao nosso redor? A resposta é simples de falar e complexa de cumprir: antes de confiar nos outros, devemos confiar em nós mesmos.

Não é um trabalho externo, não se trata de melhorar nossas habilidades sociais, simpatia ou carisma. Trata-se de se conectar com as nossas peças quebradas, com a autoestima negligenciada e a marca deixada por aquela decepção ou mágoa do passado que vive em nós intensamente.

É um trabalho árduo no qual recuperamos a nossa identidade, nos validamos em todos os sentidos e, acima de tudo, nos sentimos dignos de experimentar a felicidade.

Somente quando recuperarmos a conexão com nós mesmos, sentindo-nos fortes e confiantes, vamos derrubar as paredes que nos cercam para permitir um novo acesso. E faremos isso sem medo, sabendo que a autoconfiança e a confiança nos outros é a engrenagem que torna a vida mais fácil.

*DA REDAÇÃO RH. Com informações AMM.*Foto de Apostolos Vamvouras no Unsplash

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