PARA ELES, A SEPARAÇÃO FOI O “FINAL FELIZ”
Quando eles se separaram, já tinham internalizado a crença de que tudo se encerraria ali. Ele, ao sair de casa, levou, dentro da mala, uma desilusão aguda de que jamais seria feliz junto a uma mulher, num misto de amargura, dor e frustração, ele chorou ao volante. Um choro que se misturava ao som da sua play list.
Ela ficou naquela casa, chorando em posição fetal na cama que foi testemunha das noites sem amor, sem toque, sem borboletas no estômago, sem olhares que devoram. Era um choro que trazia à tona tantos sentimentos que ela nem conseguia ter clareza, possivelmente tenha sido uma catarse.
Juntos, eles não se entendiam, isso era fato; e, falar sobre culpa nessa altura do campeonato, já não faz sentido.
Traição, não houve; mas também nunca houve cumplicidade, sintonia, entrega. Talvez nunca tenha existido amor entre eles. Considere a possibilidade de ter sido um casamento “arranjado” aquela coisa mais insossa do mundo.
Separados de corpos, visto que as almas nunca foram casadas, cada um foi cuidar de si, da forma como puderam. E, veja que surpreendente: tempos depois, ele se ajeitou com uma mulher “sossegada” que não fazia questão de borboletas no estômago, ela só queria uma companhia mesmo.
Ela, por sua vez, acabou se esbarrando num moço um pouco mais jovem que ela. Eles se devoraram com os olhos antes mesmo do primeiro beijo.
Ela, que andava desnutrida sexualmente e afetivamente há anos, se esbaldou naqueles braços. A culpa por ser intensa virou cinzas naquele entrelaçamento de corpos e de alma. Ele venera, nela, tudo o que o outro hostilizava. Ela se sente uma adolescente.
A separação foi a melhor coisa que aconteceu na vida daquele casal. Ambos estão bem, cada um com o parceiro que merece.
Ela liberou as gargalhadas que andavam emudecidas; ele continua com o riso contido, sua marca registrada, mas tudo bem, cada um está tendo a liberdade de ser quem é.
A isso eu chamo de final feliz.
*Foto de Carly Rae Hobbins em Unsplash
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