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O perigo de permitir que a exaustão emocional se torne rotina

É perceptível que, cada vez mais, consideramos normal nos sentirmos cansados e sem energia. A correria das reuniões, o trânsito e as obrigações sugam a nossa capacidade de chegar em casa após um dia de trabalho e fazer algo que gostamos pelo simples prazer de fazer. Achamos que a vida é assim mesmo e sentir essa exaustão faz parte, mas será mesmo?

Esses dias encontrei uma amiga que me fez um relato que realmente me fez pensar. Ela trabalha em uma grande empresa multinacional e recentemente fez uma viagem a trabalho nos Estados Unidos. Ela ama o trabalho, mas tem uma rotina bem cansativa no escritório em São Paulo, então apesar da viagem ser incrível, foi também um motivo de grande estresse. Afinal, trabalho é trabalho, né? Por mais que seja divertido estar nos Estados Unidos, não deixa de ser cansativo.

Resumindo a história, no voo da volta, ela teve uma crise de exaustão emocional – eu escolhi chamar assim o ocorrido. Um determinado acontecimento desencadeou um choro que permeou praticamente todas as horas de seu voo. No início, ela disse não ter entendido muito bem os motivos daquilo, mas após raciocinar melhor se deu conta de que estava completamente exausta. Ela simplesmente teve um enorme descarga emocional decorrente de todo o estresse, obrigações, pressões dos últimos tempos, que afloraram mais ainda na viagem.

Após o relato, fiquei refletindo sobre os meus momentos de exaustão emocional, seus gatilhos e o quão frequentes eram. Fui além e pensei em todas as pessoas que conheço que já passaram por algo parecido. O mundo corporativo é muito cruel em alguns aspectos – muitas pessoas simplesmente se acabam, eliminam qualquer vestígio de saúde mental e vida pessoal em prol da profissão.

Não julgo. Cada um faz o que acha melhor para si, porém, não concordo. Desde o comecinho da minha vida profissional, coloquei em minha cabeça que eu sempre prezaria pela minha vida pessoal, ou seja, eu sempre viria em primeiro lugar e trabalho nenhum tiraria isso de mim. Esse é o meu modo de encarar as coisas e me faz muito bem. No entanto, todos os dias vejo ou ouço histórias de pessoas que perderam a linha, viraram madrugadas, abriram mão de fazer esporte, cursos, sair com os amigos… Tudo para ficar mais algumas boas horas no escritório.

Na minha concepção, nada funciona se não houver equilíbrio. Uma coisa é fazer muitas horas extras em uma semana porque há algo muito importante para entregar na sexta-feira. Agora, trabalhar 12 horas todos os dias, independente de qualquer coisa, é bem diferente. Há uma diferença muito grande aí, mas que muitos ignoram ou preferem não encarar.

Visto que crescer profissionalmente e ganhar dinheiro é uma das metas mais desejadas, muitos preferem abrir mão da vida pessoal “momentaneamente” para atingir este sonho. Mas e quando o momentaneamente vira todo dia? É aí que mora o perigo. É aí que mora a exaustão emocional, que vai chegando, dando sinais, porém, muitas vezes ignoramos. Quando estamos distraídos e já acreditando que sentir tudo aquilo é rotina, a descarga emocional vem com tudo e nos joga no chão.

É complicado. Como eu disse, o mundo corporativo pode ser muito cruel, mas cabe a nós entender os nossos limites e o que estamos ou não dispostos a abrir mão. Eu definitivamente não estou disposta a abrir mão da minha vida pessoal, minhas leituras, meu esporte, meus jantares em família. Cada um tem os seus sonhos e o objetivos. Para mim, o trabalho é apenas mais um dos pilares da vida e não a minha vida toda. Não acho normal se sentir exausto todos os dias e e ser consumida pela profissão. Descargas emocionais acontecem sim e nem sempre é só devido à vida profissional, mas estar atento aos meus limites ajuda a evitar que essa esfera me domine por completo. No fim do dia, sei que estou no caminho certo, pois tudo isso me ajuda a manter os pés no chão, as emoções alinhadas e o coração mais leve.

Bruna Cosenza

Bruna Cosenza é paulista e publicitária. Acredita que as palavras têm poder próprio e são capazes de transformar, inspirar e libertar. É autora do romance "Lola & Benjamin" e criadora do blog Para Preencher, no qual escreve sobre comportamento e relacionamentos do mundo contemporâneo.

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