O Ministério da Saúde adverte: a inveja destrói como câncer

Resiliência Humana

Há cerca de alguns meses, durante um café com uma amiga escritora, perguntei a ela que horas da vida dedicava-se ao ofício da escrita. Esta é uma questão que me atormenta bastante e tenho certeza que atormenta a todos que gostam de escrever, mas não tem a escrita (e apenas ela) como seu ganha-pão.

Escrever requer silêncio, requer introspecção, distanciamento. Estou falando de mim, neste caso. Escrever é uma viagem muito louca. Uma espécie de transe em que a gente mergulha lá dentro (buscando a essência do sentimento e as palavras para descrevê-lo) e emerge na hora de colocar este sentimento no papel (no caso, nas teclas do computador). Poucas pessoas entendem essa necessidade deste silêncio e deste distanciamento. Quem não escreve, quem não compõe, quem não vive ou deseja viver para isso não compreende. Acha que escrever é apenas isso: sentar e escrever. Ponto. Oxalá fosse assim.

Escrevo esta coluna às 4h27min da madrugada de sexta-feira. Estou seguindo o exemplo da minha amiga escritora. Naquela nossa conversa, quando perguntei em que momento ela usava para escrever um livro atrás do outro (tendo que trabalhar durante o dia para garantir seu ganha-pão ), ela respondeu: “De madrugada”.

Sou adepta de oito horas de sono bem dormidas. Preciso delas. Nem sete nem nove: oito. “Estou ferrada”, pensei. “Não me conta uma coisa dessas, por favor!”. Pois acredite: passados alguns meses daquela nosso café, faço minhas as palavras da minha saudosa bisavó Yolande: “O que não tem remédio, remediado está”.

Claro que, me conhecendo como me conheço, isso não se dará todas as noites – até porque não há organismo nem saúde que aguentem. Mas madrugadas em claro serão, sim, mais corriqueiras nos próximos meses do que poderia imaginar minha vã filosofia. Há pessoas que precisam escrever para entender o motivo e o “como” de tudo na vida. Sou uma delas. Então, uma vez escrito (e agora, sim, me convencido) que passarei algumas noites em claro em produção, venho por meio desta mudar de assunto. Gostaria de falar sobre a inveja.

Papo chato, né? Pode acreditar que eu preferiria mil vezes falar sobre sabedoria, gentileza, boas maneiras, amor ao próximo. Mas eu vou falar sobre a inveja. Infelizmente, ela está muito mais presente no nosso dia a dia do que todos esses e muitos outros sentimentos nobres. Zuenir Ventura publicou um livro pela Objetiva, em 1998, sobre a inveja intitulado Mal Secreto. Acabo de retirá-lo da estante. Está aqui do meu lado me fazendo companhia (junto com um balde de café preto).

O livro de Zuenir foi o primeiro volume da coleção Plenos Pecados – sete livros de sete diferentes autores, cada um deles escrevendo sobre um vício capital: inveja (Zuenir), luxúria (João Ubaldo Ribeiro), avareza (Ariel Dorfman), preguiça (João Gilberto Noll), ira (José Roberto Toreto), soberba (Tomaz Eloy Martinez) e gula (Verissimo). Li quase todos. Ira, do Torero, é o meu preferido e está logo ali acima, me espiando da estante.

Como dizem esses adesivos de carros que a gente vê por aí, “a inveja é uma mer#a”. Como dizia Francisco de Quevedo, “o invejoso chora mais o bem alheio que o próprio dano”. Como já escreveu Arthur Schopenhauer, “não há ódio mais implacável do que a inveja”. Até na Bíblia a inveja tem citação. Está lá, em Provérbios 14:30: “… A inveja destrói como câncer”.

Inveja é o desejo de possuir um bem que pertence ao outro. É um sentimento de inferioridade e de desgosto diante da felicidade do outro. É um sentimento de cobiça da riqueza, do brilho e da prosperidade alheia. É o desejo constante que algumas pessoas sentem ao almejar a todo custo as conquistas da vida alheia, é desejar o que o outro possui ou realiza. Para a Igreja Católica, a inveja é um dos sete pecados mortais (daí estar inserida como um dos sete temas da coleção Plenos Pecados) e contra ela se prega a virtude da caridade e o amor ao próximo. Sim, você deve sofrer a inveja e devolver o amor.

No prefácio do livro, Zuenir Ventura pede que os leitores levem consigo algo que, desde aquela época, 1998, quando li Mal Secreto pela primeira vez, nunca mais esqueci. Existem três distinções básicas entre ciúme, cobiça e inveja. Ciúme é querer manter o que se tem; cobiça é querer o que não se tem; inveja é não querer que o outro tenha.

E pra terminar esta coluna, visto que o café preto já não está mais ajudando besta madrugada insone de produção, mais duas frase sobre a inveja, um poema e um vídeo.

FRASES
“O número dos que nos invejam confirma as nossas capacidades”. (Oscar Wilde)
“O termômetro do sucesso é apenas a inveja dos descontentes”. (Salvador Dalí)

POEMA
Não te irrites, por mais que te fizerem.
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio.
(Mario Quintana)

FONTEMariana Kalil
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