O dia em que o bar virou o tribunal do amor

Murilo Leal

A mesa de bar é minha àgora. Quem me conhece sabe que sou daqueles que falam pelos cotovelos num canto da mesa. Tenho uma amiga que diz que sair só comigo é como participar de um talk show do Jimmy Fallon.

Eu realmente gosto muito de conversar e raramente não tenho assunto com pessoas. Para mim, essa prosa festiva de mesa de bar é parte de uma terapia comunitária. (É por isso que prefiro bares à baladas. Podemos sentar, comer algo e conversar sem competir com as músicas altas e repetitivas.) Conversar cara a cara é ainda o melhor jeito de passar um tempo com qualidade.

Pois bem, há dias, fui jantar com um grupo de amigos. Dado momento, o assunto proposto na mesa tornou-se o amor. Prometi não participar. Quando eu falo desse assunto sempre causo espanto nas pessoas. No bom sentido, eu acho.

Para ser mais exato, naquela ocasião, alguém falava da sua dificuldade em encontrar alguém sério. Comentava que até queria ter alguém e ser amada por ela, mas que ao mesmo tempo não estava afim de algo sério no momento. Fiquei confuso com o conceito dela de relacionamento. Isso já era o suficiente para quebrar meu silêncio, mas insisti em ficar na minha.

Cada palavra que saia da boca dela, ficava evidente que queria estar feliz ao lado de alguém, mas que também não queria o compromisso com essa decisão no momento. Era aquele teatrinho típico de pessoas que não conseguem se decidir entre envolver-se ou não na vida.

Por causa dos meus inúmeros textos sobre isso, olharam para mim como se fossem ouvir o pronunciamento de um Papa que recém assumiu o cargo. Era como se eu tivesse que dizer algo. Respirei e fui logo desembuchando sem medo:

“Acho que essa constante promoção de guerra entre sexos e o sentimento de que somos o centro do mundo está arruinando tudo. De um lado, fica um tentando fazer com que o outro se adapte a ele sempre, tornando tudo o que ele mesmo projetou numa gincana para quem se envolve com ele. E de outro, não fazem questão de andar seus 50% em direção do outro. E mais: Esses constantes joguinhos psicológicos do tipo: ‘Não vou demonstrar interesse’ estão nos afastando de maneira rápida e danosa. Sinceramente, não tenho mais paciência para isso. Estamos vivendo um tempo difícil. Estamos desinteressando numa velocidade absurda das pessoas por puro capricho. E por fim, eis aí, o nosso maior medo: Quando estamos expostos a um relacionamento, não podemos mais pensar só em nós mesmo. E isso nos apavora.”

Pausa longa até que uma das pessoas engole seco e concorda com a cabeça. A outra ri de nervoso e uma terceira fica totalmente sem resposta, mas pensativa. Imediatamente, a mesa mudou de assunto.

Eu posso até confessar que o amor é um réu difícil de ser defendido, mas isso não quer dizer que ele seja culpado por tudo, apenas que existe sobre ele milhões de culpas e acusações que na verdade cabe a nós. Alguns indícios reais, outros nem tanto. O coitado mal consegue defender-se de toda essa gente que o usa para esconder suas indelicadezas e sandices.

O amor raramente merece a sentença, é a gente que não dá conta de assumi-lo com toda sua bagagem na maioria das vezes. Somos nós que escolhemos ser frios, não se importar com o outro e acreditar que somos vítimas de acasos. Constatar isso é um passo para crescer, ignorar é dois para conformar-se.

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