Eu sempre acordo celebrando o privilégio de estar viva. Eu sempre procuro o episódio mais recente de felicidade para trazer à lembrança na hora de acordar. Eu sempre espero que o dia de hoje seja melhor do que o de ontem. Eu sempre agradeço a Deus por cada amanhecer, por cada sol, por cada céu, por cada oportunidade de ir e de voltar.
Infelizmente, essa declaração é uma meta que não atingi neste dia, e nem nos anteriores. Algo que era natural na infância, na adolescência, fui perdendo ao longo da vida. Os meus despertares não têm mais a carga mágica de inclinação para a felicidade. Acredito que, à medida em que os anos passam, a isenção da alegria é gradativamente substituída pelo peso da gravidade. Não temos mais a leveza do passarinho que voa em novidade.
No entanto, viver é sempre o bem maior. Sempre teremos o episódio mais recente de felicidade para recordar. Aquele que nos fez felizes como crianças. Ou que nos emocionou como adolescentes. Se foi ontem ou faz tempo, basta buscá-lo na memória e refrescar, como quem refresca almofadas amassadas. Ainda temos o mecanismo que traz de volta o otimismo nas engrenagens da mente. Alguma frase extraída da Bíblia pode nos ajudar nesse processo. Como esta: ” Este é o dia que o Senhor nos deu. Alegremo-nos e regozijemo-nos nele.”
Se a felicidade gratuita não nos visita a cada manhã, ainda assim não podemos desistir da mania de ser feliz. Ser feliz nessa altura da vida, quando grande parte dos desejos já foi realizada , e quando a outra parte já foi renunciada, é um exercício de transpiração. É pedra extraída da pedreira. Envolve demanda, cuidado, inspiração em modelos antigos e novas maneiras de relacionar com o mundo, com as pessoas e com Deus.
Meu pai dizia algo que ele leu em algum lugar: ” quando te faltarem motivos pra prosseguir, prossiga pelo motivo dos outros.”
No próximo dia 17 irei para a praia, levando a Rafaela. A Rafaela verá o mar pela primeira vez, e molhará os pezinhos, e brincará na areia e baterá palmas de alegria e de felicidade. Este é um bom motivo para prosseguir. Prossigo, então.
Escrevo para não esquecer. Escrevo para me lembrar. Escrevo para que a porção da nebulosa saudade não seja maior do que a serena e tranquila realidade. E assim, a gente equilibra o PH da nostalgia: sacudindo a tristeza antiga pelas alegrias recentes que vão se incorporando ao nosso currículo de felicidade.
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