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Ninguém é tão ocupado assim, é só uma questão de prioridades

Não é preciso demorar-se por horas ao lado de alguém, para que nossa afetividade seja compartilhada, pois a intensidade do amor independe da quantidade, mas se alimenta do tanto de verdade que carregamos durante nossos encontros.

Ninguém há de negar que a vida contemporânea requer um desdobramento absurdo de cada um de nós, em meio às mais diversas tarefas e obrigações que lotam as nossas agendas. Os horários de trabalho se estendem, a necessidade de estudos mais aprofundados, a jornada dupla, as contas que se avolumam ao fim de cada mês. Enfim, o dia a dia atual tornou-se uma maratona muitas vezes ingrata de responsabilidades com o que não é lazer, deixando-nos pouco espaço para os contatos descompromissados, para o recarregar baterias junto ao nada para fazer.

Por essa razão é que perdemos a vontade de sair da rotina, como se nossas forças já se esgotassem ao fim de cada expediente, uma vez que nem ao menos conseguimos nos desligar do trabalho quando não estamos trabalhando. Preocupam-nos os débitos bancários, os boletos intermináveis, o seguro vencendo, a crise econômica, a crise conjugal, a violência que espera nossos filhos lá fora, o medo de perder o emprego, perder os bens, o cartão de crédito.

E então nos esforçamos para arranjar um tempinho para caminhar na esteira, para levantar peso, para cuidar dos cabelos e das unhas, para fuçar a vida alheia nas redes sociais, enquanto negligenciamos o que de mais especial já possuímos: as pessoas que nos amam com verdade. Deixamos para lá a cervejinha com aquele amigo de todas as horas, a visita aos parentes queridos, o telefonema ao pai, à mãe. Deixamos para depois o ficar junto com o parceiro, que teima em procurar, em vão, pelo nosso olhar.

Não é preciso demorar-se por horas ao lado de alguém, para que nossa afetividade seja compartilhada, pois a intensidade do amor independe da quantidade, mas se alimenta do tanto de verdade que carregamos durante nossos encontros. Podem ser minutos, horas, não importa, porque o que importa é importar-se, seja através de um aperto forte de mão, de um bilhetinho grudado na geladeira, uma piscadinha repentina, um beijo estalado, um “te amo” do nada. Sempre teremos tempo para perguntar a quem amamos como foi o seu dia.

Por mais que estejamos cansados, esgotados, desanimados, ainda que o dia tenha sido decepcionante, mesmo quando a gente tenha levado rasteira atrás de rasteira, é preciso chegar à nossa casa com o propósito de entrar em um lar, fechando a porta para o que nos desagrada e não tem nada a ver com aquelas pessoas maravilhosas que nos aguardam ao fim do dia. Ali nos lembraremos de que somos amados o bastante para acreditar no poder do amanhã, na força do amanhecer e das esperanças que cada novo dia nos traz.

*O título deste artigo baseia-se em citação de Guilherme Ávila

Prof. Marcel Camargo

Graduado em Letras e Mestre em "História, Filosofia e Educação" pela Unicamp/SP, atua como Supervisor de Ensino e como Professor Universitário e de Educação Básica. É apaixonado por leituras, filmes, músicas, chocolate e pela família.

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