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Não gosto da vida em banho-maria, gosto de fogo, pimenta, alho, ervas. Por um triz não sou uma bruxa

“Bruxas, bruxas, bruxas…”

A roupa preta, o nariz pontudo, a verruga no canto da bochecha, a vassoura usada como instrumento de locomoção, o caldeirão que faz poções mágicas, a risada maquiavélica, a maçã envenenada na palma da mão, os olhos esbugalhados, já não pertencem mais a nós, bruxas modernas.

Estamos em outro patamar. Trocamos a roupa tradicionalmente preta, por aquela que faz com que nos sintamos bem. Seja ela, a cor que for. Não precisa estar na moda e atender dicas de tendências, criadas ou copiadas de revistas como a Vogue.

Nosso nariz, também descaracteriza os contos do outrora, primamos pela verdade do que a mentira, que fazia com que o nariz daquele outro personagem infantil, crescesse a cada inverdade falada. A verruga no canto da boca, a mancha na pele, o sinal de nascença, o redemoinho no cabelo, tiramos de letra, são características únicas, que nos diferem dos demais.

Sabemos que a perfeição não está em nossa estética, mas no que somos de verdade, está em nossa essência. Não precisamos de vassouras para nos teletransportamos. Somos donas de nossas vidas e exercitamos com maestria o direito de “ir e vir”, quando e da forma que desejarmos. E, para que conquistemos a independência e maturidade que nos permita isso, não é necessário que puxemos o tapete de ninguém. Somos bem mais nós. E, os outros, que sejam mais eles.

E se ser assim é ser bruxa, que não sejamos uma vez só, que sejamos pura redundância: bruxas, bruxas, bruxas.

Não precisamos de caldeirões e nem de poções mágicas, nem mandingas e qualquer outra prática que tenha por objetivo o mal do próximo. Somos energia boa, que agrega, que atrai positividade.

A prática do mal, é característica de pessoas pequenas. Mulher de verdade, quer e semeia o bem. Não tem medo da concorrência, seja ela, qual for. O que vem contra nós, bate e volta. A nossa risada, não tem nada de maquiavélica, é verdadeira. E isso, incomoda mais do que é possível pensar.

A felicidade do outro, dói no infeliz. E não me refiro do sorriso amarelo, forçado, bege e morno. Aquele sorriso por interesse. Refiro-me a sorrir, até a barriga doer, entre amigos sinceros, não em momentos vivenciados ao lado de pessoas que só estamos ao lado, por convenções ou benefício próprio.

E, se for para deixar a pele enrugada, que assim seja. Trocamos qualquer peeling do mundo, por marcas de expressão que denunciam a vivência plena. A maçã, não recusamos. Comemos o que for, da buchada ao caviar. Não temos frescura. Preferimos as consequências da balança, do que as privações de dietas malucas.

Nossos olhos, vez ou outra, ficam sim esbugalhados. Somos intensas. Se sorrimos, gargalhamos. Se choramos, soluçamos. Conosco, não tem essa de meio-termo.

Por fim, que não joguem a nós em fogueiras. Que não nos rotulem como no passado. Que não nos definam enquanto estamos em processo de construção, buscando, diariamente, nossa autodefinição.

Como tão bem escreveu Martha Medeiros: “Não gosto da vida em banho-maria, gosto de fogo, pimenta, alho, ervas. Por um triz não sou uma bruxa”.

E se ser assim é ser bruxa, que não sejamos uma vez só, que sejamos pura redundância: bruxas, bruxas, bruxas.

Karol Pinto

Jornalista, balzaquiana, apaixonada pela escrita e por histórias. Alguém que acredita que escrever é verbalizar o que alma sente e que toda personagem é digna de ter sua experiência relatada e compartilhada. Uma alma que procura sua eterna construção. Uma mulher em constante formação. Uma sonhadora nata. Uma escritora que busca transcrever o que fica nas entrelinhas e que vibra quando consegue lançar no papel muito mais que ideias, mas sim, essências e verdades. Um DNA composto por papel e tinta.

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