Não estou louca

Nat Medeiros

Não estou louca. Esse é o título de um filme que vi recentemente pela Netflix e que me surpreendeu muito

Não estou louca. Esse é o título de um filme que vi recentemente pela Netflix e que me surpreendeu muito positivamente. A história gira em torno de Carolina, uma mulher de 38 anos que tem uma vida perfeita e vê tudo mudar repentinamente no dia em que descobre que é estéril e que seu marido, Fernando, está a traindo com sua melhor amiga, Maite. Como se não bastasse tanta sacanagem, Maite está grávida e lhe informa que o filho se chamará Dante, nome do pai de Carolina, que Maite diz considerar como seu pai também.

A reação de Carolina diante a situação não é a melhor, mas é impossível não sentir empatia pela personagem. (Quantas de nós não levamos umas rasteiras da vida e em algum momento perdemos um pouco a sanidade?). Carolina, como forma de reação, bebe muito e se joga de uma sacada. Sua queda não foi grave e ela sobrevive sem muitas sequelas, mas por ser considerada como um risco à sua própria vida, ela é levada para uma clínica psiquiátrica, onde ficará por no mínimo três semanas.

Até aí o filme é bem comum e confesso que quase desisti de assistir (não desistam, sério). Na clínica psiquiátrica se encontram personagens muito caricatos, que beiram o ridículo e nos passam uma sensação de irrealidade. Carolina parece ser a única personagem real e todos seus esforços são para sair daquele lugar lotado de pessoas atípicas. Mas aos poucos, a análise dos personagens vai se aprofundando e somos envolvidos pela trama.

É impossível não se ver na cena em que Carolina consegue internet com o objetivo de stalkear o ex (quem nunca?). Ela acaba vendo um vídeo em que Fernando e Maite exalam felicidade na piscina da sua casa. Abalada, recebe um conselho de uma colega de clínica que a incentiva a matar o cachorro do ex. Porém, uma outra colega lhe dá um outro conselho que é muito mais lógico e útil:

“-Se alguém te ferra, essa pessoa quer que você sofra. Óbvio, certo? E se você não sofre? E, ao invés disso, é muito feliz? Você o ferra de volta, não é? Viu? A melhor vingança é ser feliz, pode anotar.”

Óbvio que Carolina não se torna feliz do dia pra noite, mas ela passa a ser confrontada em suas próprias convicções. Em um dos seus diálogos com o psiquiatra, ela chega a conclusão de que seu consumo de álcool era abusivo e que ela nunca foi feliz pois tudo que sabia fazer era seguir o modelo padrão que a sociedade e principalmente sua mãe lhe impunham: casar com um homem pelo qual não era apaixonada para não ficar sozinha, ter filhos pois sua mãe queria netos e seguir uma profissão tradicional. De tudo que ela tinha feito da sua vida, nada era o que ela queria. Ela sofria por não poder ter filhos mas com o tempo se encoraja a assumir para si mesma que nunca quis tê-los. É o início da sua libertação.

“-Já ouviu falar alguma vez de “condicionamento social”? Antes mesmo de você nascer, já existem pessoas que estão projetando seu futuro com a desculpa de que “querem o melhor pra você”. Seus pais já sabem que religião seguirá, onde estudará e que profissão você terá. Você nem sequer nasceu e já tem pessoas que estão projetando suas frustrações com a desculpa de que “querem o melhor pra você”. O que é o melhor para a sua mãe não necessariamente é o melhor para você.”

Um outro diálogo interessante com o psiquiatra ocorre logo após o seu ex-marido ir visitá-la com sua atual namorada, Maite:

“-Sinto que nunca fui apaixonada por ele! Sou uma imbecil e me casei com ele puramente por pressão social. Nunca tivemos absolutamente nada a ver. Não quero mais vê-lo. Quero proibir seu acesso.

-Isso é fácil aqui na clínica, o complicado é no mundo real. Fernando é um terrorista emocional. Gente como seu ex-marido não tem a sensibilidade para ver que vir aqui com Maite é um ato de terrorismo. Ele é capaz de dizer as maiores burrices sem sentir culpa porque em sua lógica parece normal. Ele é o Talibã e você e é as Torres Gêmeas. E o que você tem que entender é que a única maneira de ganhar esta guerra é não entrando no jogo dele. Lição de vida: não se negocia com terroristas.”

É fácil entender o que o psiquiatra disse com isso e levarmos para a nossa vida: se você se relacionou com um terrorista emocional, alguém que não se preocupou com seus sentimentos, não negocie com essa pessoa. Não deixe essa pessoa se aproximar. Evite contato pois em todo e qualquer contato haverá chances de você sair pior do que estava.

O diálogo que Carolina tem com sua mãe, quando esta se mostra envergonhada por ter uma filha internada em clínica psiquiátrica e lhe arranja um encontro amoroso com um conhecido, é um outro marco importante em sua virada. Ela coloca limites claros na relação ‘mãe e filha’ e se assume como única responsável por suas escolhas dali em diante. Liberdade e responsabilidade estão intimamente ligadas. E Carolina sabe que é um preço que se vale pagar.

Mas minha parte preferida do filme é quando ela “reconhece sua loucura” e uma das médicas lhe diz que está apta a a receber alta, pois “só as pessoas que estão sãs é que são capazes de reconhecer sua loucura”.

O filme não é perfeito. Como disse anteriormente, em alguns momentos é caricato, afinal, trata-se de uma comédia dramática, e há também certos erros, como a forma em que o Transtorno de Personalidade Borderline é retrado através de uma personagem secundária. Mas vale a pena ser visto pelos diálogos que nos despertam e que podem ser aplicados em nossas próprias vidas. Uma mulher aparentemente feliz e normal teve sua vida despedaçada para só então entender que a felicidade pra ela não era nada daquilo que ela vinha vivendo por 38 anos. Costumo pensar que crises são aquelas oportunidades que temos de recomeçar de um jeito em que sejamos mais nós mesmos, mais felizes e por que não… mais loucos?

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS





COMENTÁRIOS




Nat Medeiros
Sou personagem de uma comédia dramática, de um romance que ainda não aconteceu. Uma desconselheira amorosa, protagonista de desventuras do coração, algumas tristes, outras, engraçadas. Mas todas elas me trouxeram alguma lição. Confesso que a minha vida amorosa não seguiu as histórias dos contos de fada, tampouco os planos de adolescência. Os caminhos foram tortos, íngremes, com muitos altos e baixos e consequentemente com muita emoção. Eu vivo em uma montanha-russa de sentimentos. E creio que é aí que reside o meu entendimento sobre os relacionamentos. Estou em transição: uma jovem se tornando mulher, uma legítima sonhadora se adaptando a um mundo cada vez mais virtual. Sou apenas uma mas poderia ser tantas que posso afirmar que igual a mim no mundo existem muitas e é para elas que escrevo: para as doces mulheres que se tornaram modernas mas que ainda acreditam nas histórias de amor.