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Não, definitivamente ele não estava bem. Mas jurou a si mesmo que se reconstruiria, caso pudesse.

Não, ele não estava bem. Tinha algo que lhe incomodava. Algo só dele. Que não ousava falar em voz alta. Por vezes, lhe tirava o sono. Por outras, lhe roubava o prumo. A tranquilidade que lhe era característica, não podia ser mais vista no olhar apreensivo de agora. Sentia como se um nó lhe tapasse a garganta. Como se mil cata-ventos soprassem em seu peito.

Uma crônica sobre ele, sobre monstros e angústias, sobre buscar a si

Não, definitivamente ele não estava bem. Pela primeira vez em sua vida, decidiu enfrentar seus demônios. Baixou espadas e guarda. Armou-se com uma coragem despertada pela costumeira fraqueza. Sentiu que os meios-sorrisos e que as meias-verdades, eram metades. E que ele queria se ver e se ter por inteiro.

Não, definitivamente ele não estava bem. Acordou com a certeza gritante de que é preciso que ele, numa escuridão de um inverno qualquer, busque e regue sua essência, mesmo que, durante os escaldantes dias de verão, tenha que desempenhar vários papéis.

Não, definitivamente ele não estava bem. Sentia-se muitos, em um só. Mas, não conseguia lembrar quem ele era de verdade. Acabava sendo vários, superficialmente. Desfocando-se do todo, que verdadeiramente importa. Tornou-se partículas, perdidas em vários contextos.

Não, definitivamente ele não estava bem. Mas jurou a si que se reconstruiria, caso pudesse. Sem pressa, sem pressão, sem urgência. Gradativamente, pedacinho por pedacinho. Estava cansado de mascarar suas dores, de dissimular suas angústias.

E, no dia em que percebeu, que definitivamente não estava bem, deu início a sua própria busca. Repetiu para si o mantra de Dom Quixote: “Sonhar o sonho impossível. Sofrer a angústia implacável. Pisar onde os bravos não ousam. Reparar o mal irreparável. Amar um amor casto à distância. Enfrentar o inimigo invencível. Tentar quando as forças se esvaem. Alcançar a estrela inatingível. Essa é a minha busca”.

Karol Pinto

Jornalista, balzaquiana, apaixonada pela escrita e por histórias. Alguém que acredita que escrever é verbalizar o que alma sente e que toda personagem é digna de ter sua experiência relatada e compartilhada. Uma alma que procura sua eterna construção. Uma mulher em constante formação. Uma sonhadora nata. Uma escritora que busca transcrever o que fica nas entrelinhas e que vibra quando consegue lançar no papel muito mais que ideias, mas sim, essências e verdades. Um DNA composto por papel e tinta.

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