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Não dá para continuar acreditando naquilo que nos fizeram acreditar

Domingo passado, Marília Gabriela entrevistou a atriz Mônica Martelli. Lá pelas tantas, Mônica soltou uma expressão: “Atualização de identidade”. E disse que precisamos atualizar nossas identidades de vez em quando, pois conservamos identidades há tempos vencidas, quando quem fomos não existe mais.

Gostei da expressão e tomei-a para mim. Pois durante muito tempo andei por aí com a vida atualizada e a identidade vencida, alimentando novos sonhos com velhas inseguranças, seguindo em frente olhando pra trás, correndo o risco de tropeçar em antigos paradigmas, ansiedades arcaicas, medos obsoletos; sem me olhar no espelho e perceber que mereço novo passaporte, alegrias inéditas, rumos exclusivos.

Acho que já disse isso aqui no blog, mas não canso de repetir, talvez para reafirmar, mas o fato é que alimentamos nostalgias como se o tempo bom fosse aquele que ficou lá atrás. Isso não pode funcionar. Nunca funciona.

Nos apegamos “à nossa história” como se contar nossa ladainha todos os dias fosse poético ou sublime. E o fato é que “nossa história” só existe no hoje, no aqui e agora, que construímos com o que somos_ nunca o que fomos.
Gostei muito da “carta pra Maria das Graças” que o escritor Paulo Mendes Campos escreveu e publiquei aqui na coluna anterior. Num dado momento ele diz:

“Disse o ratinho: “Minha historia é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance.” Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só um jeito de contar um vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos, irremediáveis, Maria. Os milagres acontecem sempre na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrario do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar…”

Precisamos parar de sofrer com dores que já expiraram, com traumas que não nos definem mais, referências ancestrais que há muito não fazem parte de nosso currículo.

Não dá para continuar acreditando naquilo que de alguma forma nos fizeram acreditar. Em rótulos estampados em nossa baixa estima que nos conduzem por caminhos de depreciação e amargura.

Fuja de gente que adora lhe chamar por antigos apelidos, aqueles pejorativos que você concordava em usar só para não desagradar a galera, só para se “enturmar”. Você não é mais aquele que namorou fulana, a que partiu seu coração. Exija respeito dos “amigos” que adoram te lembrar amores vencidos, casos perdidos, pessoas que passaram_ passaram, não permaneceram.

Atualize sua identidade e não permita recaídas. Confie no cara atrás do espelho, na vida dentro de casa, no número que aparece na chamada do seu celular todos os dias ou pelo menos toda semana.

Se livre de contratos antigos, de “parcerias” que só existem em sua memória afetiva, de sentimentos que não lhe permitem evoluir.

A gente se acostuma com o personagem. E leva muito tempo investindo em máscaras que já não nos representam plenamente. Pra quê?

Por falta de assunto, a gente inventa que está gorda_ pra falar de dieta com as amigas; reclama da relação pra se sentir parte do grupo de insatisfeitos; ri junto com os amigos que insistem em te ver de forma estereotipada; coleciona justificativas, baseadas em “traumas de infância”, quando na verdade há pouca habilidade de lidar com o presente.

E pergunto: até quando?

Tem horas que é necessário estabelecer limites. Ser conhecedor de si mesmo e detentor de suas verdades. A vida segue, o tempo traz novos ares. Você muda_ quem sabe pra melhor_ e vai continuar fingindo que ainda é aquele que se escondia do mundo?

Desconecte-se daquilo que não lhe traz alegria, renove seus votos com o presente e cultive seus canteiros com flores recém colhidas, sem ervas daninhas…

Não supervalorize o passado, sua “história”, seus traumas, sua dor de cotovelo. Todo mundo tem feridas, todo mundo leva tombos, cada um sabe o que traz na bagagem. Tenha sim coragem de valorizar seus milagres, aquilo que é real e palpável, o terreno onde pisa, as mãos entrelaçadas às suas.

E acredite: Só assim é possível seguir em frente, com passaporte novo, com a identidade atualizada.

Fabíola Simões

Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.

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