A malandragem abre muitas portas, mas não as dos castelos do céu.

Luciano Cazz

A injustiça é um desajuste da realidade, pois é quando o que deveria acontecer de acordo com a ordem natural do universo é tocado pela mão do malandro saindo do fluxo correto para prejudicar alguém e favorecer outro que não merece, pelo anterior motivo de ser injusto.

E, sabendo disso, um Rei de uma antiga lenda chinesa, ao resolver se casar, convocou todas as moças do condado a irem ao castelo real para lhes fazer uma proposta. Uma pobre imigrante, que não acreditava ter chances com a Majestade, foi até o castelo apenas pelo temor de sofrer alguma represália da corte. O Rei, então, distribuiu uma semente para todas as moças, e prometeu que sua futura rainha seria aquela que melhor cultivasse a flor da semente dada e não de outra.

Era uma situação propícia para trapaças e, ainda, valia a realeza. A malandragem é muito atraente porque ela tem suas vantagens, as quais soam como justas para quem tem o caráter falho. Ainda mais, quando o trapaceiro é um mestre em ser injusto às escondidas, conseguindo dissimuladamente com que todos o considerem nobre e leal. Isso significa atalhar um longo caminho que deveria ser longo, ter mais fazendo menos, ainda sem punição. E, então, o indolente é feliz, mesmo afogado em sua fraqueza.

Ser justo é para os fortes, porque é preciso abrir mão dos benefícios da trapaça para ser correto. Quando a vantagens de ser justo não são imediatas, e nem há quaisquer punições para os desonestos, requer-se muita resiliência e caráter para escolher o caminho da honestidade. E deixar agir naturalmente a lei do universo, que consiste na justiça, é estar de acordo com os desígnios divinos. A malandragem é uma opção desse mundo, mas a lisura é uma decisão da alma. E não interessa de onde você vem ou como você se parece, se você é capaz de ser justo, sua alma é gigante e valorosa.

Então, um ano depois, a flor da jovem imigrante ainda não havia brotado quando o Rei convocou novamente todas as moças a voltarem ao castelo. A pobre moça chegou e logo começaram a rir da sua cara. Ela era a única que não tinha uma flor em suas mãos. O Rei olhou uma a uma. Até que avistou a jovem sem flor.

– Onde está sua flor?
– Me desculpe, Vossa Majestade. Ela não brotou.
A jovem trêmula falou encarando o chão, enquanto algumas moças tentavam segurar o riso. Então, o Rei analisou mais jovens e sentou-se no trono:
– Tenho minha decisão. A futura rainha é… Você!
E para o choque de todos, ele apontou para a moça sem flor.
– Eu?… Sou apenas uma pobre imigrante.
– Mas é a única moça honesta do meu reino.
– Por que dizes isso, Vossa Majestade?
– Porque todas as sementes que distribuí eram estéreis.
E, assim, o Rei escolheu sua nova Rainha.

Portanto, mesmo que lhe chamem de ingênuo ou riam da sua cara, lembre-se de que a integridade pode não ser um valor para os homens, mas o é para os Anjos. Por isso, ame a verdade, faça dela sua bandeira e construa castelos reais no seu coração e, então, pode acreditar: eles lhe abrirão as portas do céu.

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Luciano Cazz
"Luciano Cazz é publicitário, ator, roteirista e autor do livro A Tempestade depois do Arco-íris."