Mães difíceis (ou tóxicas, distantes, castradoras): amá-las ou deixá-las?

Resiliência Humana
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Por Catarina Fonseca

Num mundo ideal, a nossa mãe é a nossa amiga, confidente e maior admiradora. E quando não vivemos neste mundo e a mãe é tudo menos uma aliada? Como se gere uma relação difícil, conflituosa, distante ou castradora?

De mães tóxicas está o cinema cheio: em ‘Um Quente Agosto’, Meryl Streep é Violet, uma toxicodependente que leva as filhas ao limite, até acabar por confessar que foi ela própria vítima de uma mãe abusiva.

Quando disse que ia fazer um artigo sobre mães difíceis, levantaram-se quase todas as mãos. Hmm. Claro que, se formos ver bem as coisas, mães difíceis são todas. Ser mãe não é fácil, ser filha ainda menos, e há maus momentos entre todas as mães e filhas, tal como há em todos os casamentos.

Ou seja: há mães esporadicamente difíceis (todas). E depois há as mães consistentemente difíceis.

Quem tem uma mãe difícil sempre soube que a tinha. E consolem-se: há muitas mas mesmo muitas mães que parecem ter feito da arte de ser uma má mãe uma missão para a vida. As histórias verdadeiras são as mais variadas, das mais inócuas às mais cruéis: “Quando fiquei grávida da minha segunda filha, a minha mãe ficou contra”, recorda Márcia Pereira, 50 anos. “Nunca percebi porquê. Um dia, ia a atravessar a estrada e quase fui atropelada. Felizmente saí dali só com um tornozelo torcido. Comentário dela: ‘Foi uma pena, tinha-se resolvido tudo naturalmente’.”

“A minha mãe mete-se em tudo em minha casa: vai lá levar comida, lava- -me a roupa, mexerica nas coisas. Já lhe disse que parasse, mas ela, como não tem nada que fazer na vida, continua naquilo… Ainda foi pior quando o meu filho nasceu, desautoriza-me em tudo. Farto-me de lhe pedir: – Ó mãe, deixe que o Tiago coma sozinho, que já tem idade – e ela dá-lhe sempre a comida na boca. Digo-lhe: Não quero que o Tiago brinque ao pé da estrada. Pois ela sempre que lhe deixo o neto, faz isso. Já falei com ela, teve uma crise de choro, e depois voltou tudo ao que era dantes”, desabafa Júlia V.

Mas qual é a barreira entre uma mãe ‘apenas’ difícil e uma pessoa com transtornos psicológicos graves? E mesmo que se esteja ciente desta barreira, que se pode fazer?

Uma vida que ela não desejou
“Mesmo quando eu explico que a minha mãe é narcisista, os meus amigos dão-me imensos conselhos sobre como melhorar a minha relação com ela”, conta a escritora americana Henriette Lazaridis, num testemunho sobre a mãe (“How to repair the toxic legacy of a bad mother’, em www.dailymail.co.uk). “O que eles nunca perceberam é que, com um narcisista, nenhuma relação pode ser salva, porque o narcisista não está em nenhuma relação com ninguém. Não lhe contes nada sobre ti, porque ela não ouve. O narcisista está fechado numa espécie de Teflon emocional.”

Claro que, quando uma pessoa destas é nossa mãe, as coisas pioram: pode passar bastante tempo até se perceber que se está a lidar com algo mais que uma Mãe Difícil. “Já tinha mais de 40 anos quando fui a um programa de rádio e disse qualquer coisa com a qual a minha mãe discordava absolutamente. Ficou furiosa, mas não era apenas pelo que eu tinha dito. Era fúria por eu ter um ponto de vista. Eu não existia fora dela, não tinha existência exceto como parte da sua identidade.”

E como é que uma filha resiste a isto? Não resistindo: “A filha de uma Mãe Difícil tem sempre a esperança de que as coisas mudem. Com uma mãe narcisista, isto nunca acontece. A narrativa dela rejeita a mudança, o tempo, e os outros. Tudo o que eu posso fazer é recordar-me de que aquela é uma vida que ela não desejou.”

A narcisista é um dos ‘tipos’ de mãe difícil apontados pela psicóloga britânica Terri Apter, autora do livo ‘Difficult Mothers: Understanding and Overcoming Their Power’. “Uma mãe difícil é mais do que uma pessoa com quem temos problemas de vez em quando”, explica. “Uma mãe mesmo difícil põe a filha perante um grave dilema: ou desenvolve mecanismos complexos e autocastradores para manter a relação com a mãe, com grandes custos para a filha em termos de autoestima, relação e valores, ou arrisca-se a sofrer humilhações, desaprovação e rejeição.”

A mãe difícil impõe este dilema constantemente: “Com fúria, inflexibilidade, expectativas rígidas e culpabilização, que tomam prioridade sobre as necessidades da filha. A inveja também pode estar presente. Claro que muitas mães têm estes ‘acessos’. Mas é o carácter constante deste comportamento que define uma mãe difícil.”

Os pais também precisam de limites
Há várias formas de se ser ‘difícil’, mas as filhas de mães tóxicas em geral queixam-se de narcisismo (a mãe põe a sua vida e as suas necessidades antes das necessidades da filha e age como se a filha fosse uma extensão sua), preocupação com o exterior (a mãe preocupa-se com ‘o que as pessoas vão dizer’ se a filha faz qualquer coisa que não aprova), desinteresse ou incapacidade de perceber a vida da filha (não pergunta nada sobre a vida dela), anulamento de fronteiras e desrespeito pelo espaço ou autoridade da filha (telefona à hora que quer, interfere com a casa dela e os filhos dela, faz aos netos aquilo que a filha lhe disse especificamente para não fazer), crítica constante (falta-lhe empatia para perceber as escolhas ou comportamentos da filha), vitimização (acha que nunca teve aquilo que merecia) e incapacidade de dar o braço a torcer (não se mostra disposta a mudar para melhorar a relação com a filha).

Como é que se convive com isto? Por um lado, temos vontade de cortar com aquela pessoa. Por outro, mãe é mãe…
“Temos tantos problemas com a mãe porque não conseguimos colocar limites”, explica a mediadora familiar Margarida Vieitez, autora do livro ‘SOS Manipuladores’ (Esfera dos Livros). “E não conseguimos porque temos muito medo e muitos medos: a mãe é a relação mais básica, o nosso modelo, precisamos que ela esteja presente na nossa vida. Temos medo da rejeição, do abandono, do conflito, da culpa.”

Enquanto somos crianças e adolescentes, não há muito a fazer em relação a isto. “Perante uma mãe culpabilizante, castradora, crítica ou pouco afetuosa, a criança tende a pensar que não é merecedora da admiração e amor, a sentir-se culpada, rejeitada e abandonada”, explica Margarida Vieitez. “É muito difícil uma criança ou adolescente reagir, uma vez que o que está em causa é a aprovação maternal. Muitas vezes, apenas no final da adolescência a filha se apercebe dessa ‘toxicidade’, e mesmo assim tende a negá-la! Ou então, pode começar a perceber que esses padrões ‘tóxicos’ nada têm a ver com ela e a diferenciar-se, o que pode ocasionar conflitos de vária ordem.”

Depois, há a tristeza pela filha ideal que sentem que não são: “A maioria das mães sabe que o importante não é ter a filha ideal, mas uma filha feliz, mas ainda existem as que cobram e exigem o que elas próprias não conseguiram dar, criando sentimentos de culpa muito fortes nas filhas. Um dia, teremos adultas insatisfeitas e com baixa autoestima, que podem tornar-se tão ou mais tóxicas que as mães.”

Na idade adulta, ao medo junta-se o dever e a culpa. “Culpamo-nos e deixamos que nos culpem com imensa facilidade”, nota Margarida Vieitez. “Sentimo-nos culpadas quando dizemos ‘não quero’, quando dizemos ‘não é isso que eu penso’, ‘não concordo’. Dizer ‘não’ é sempre difícil, e a culpa em relação à mãe é enorme. Começamos a odiá-la, e sentimos culpa por esse sentimento. Depois há o dever: todos nós somos educados na noção do ‘dever’ para com os pais, e quando queremos colocar limites e dizer ‘isto não é bom para mim’, encostam-nos à parede e calam-nos, mesmo em relação a situações absurdamente injustas e inimagináveis.”

HÁ UMA GERAÇÃO DE MANIPULADORAS?
O nível de ‘toxicidade’ nas relações mãe-filha atinge o seu exponencial na geração de 40/50 anos, com mães entre 60 e 80 anos. “Muito provavelmente, isso explica-se pela profunda mudança de mentalidades entre estas gerações, nomeadamente em termos de relações”, explica Margarida Vieitez. “As relações, quer amorosas, quer maternais e paternais, passaram a estar sustentadas em afetos. Há 40 anos, quem eram os pais que sabiam que ter tempo de qualidade com os filhos e criar laços com eles contribuía para que fossem adultos felizes? Que a agressão verbal e física deixa marcas profundas? Ou que os filhos têm personalidade e necessidades emocionais próprias? Claro que tudo isto, levado ao extremo, hoje veio a cair no oposto, no despotismo de alguns filhos a quem os pais superprotegeram.”

Nunca é tarde para mudar
Portanto, devemos dizer ‘não’ e ir contra culpas e deveres quando o nosso bem-estar está em risco. Mas será que vale a pena, perguntam muitas filhas com mães já idosas, cristalizadas numa vida de manipulações. “Nunca é tarde para ter uma nova atitude, para pôr os pontos nos ‘is’ e para nos fazermos respeitar”, explica Margarida. “E elas aprendem a respeitar-nos.” O que se deve fazer: potenciar a comunicação assertiva. “Ou seja: não a culpabilizar de volta, porque isso já ela faz há muitos anos contra nós, mas dizer-lhe exatamente como nos faz sentir. Se não tiver esta conversa, as atitudes dela vão continuar como sempre foram.”

Estabeleça regras e limites: não vou permitir mais aquilo que fazes comigo. “Aconselho a que se vá tentando estabelecer mudanças. Muitas vezes, estas mães são pessoas muito manipuladoras e narcisistas, que sempre se habituaram a controlar os outros, e é difícil fazê-las mudar. Mas elas mudam.”

E quando não mudam? “Muitas filhas tentam conversar, colocar limites, mudar o ‘registo’, mas às vezes os comportamentos já estão tão cristalizados que é difícil mudar, com a agravante que a própria mãe nem se apercebe.” Pedir ajuda especializada pode ser a solução e deve ser feito. Pode-se tentar uma mediação com um psicólogo.
“Geralmente, começa por vir uma das pessoas sozinha à consulta, e nós através dessa pessoa muitas vezes conseguimos chegar à outra.” E assim tentar quebrar o círculo da manipulação materna…

3 MEDIDAS DE EMERGÊNCIA
Sugeridas pela terapeuta familiar Karyl McBride, no livro ‘Will I ever be good enough’.

1 Relação ‘light’
Muitas filhas tentam a terapia, mas muitas mães difíceis são narcisistas: não são capazes de comunicar intimamente com os outros e também não conseguem conectar-se com a sua vida interior, e portanto muitas vezes não colaboram com a terapia. Remédio: admitir que nunca serão próximas e ter uma relação mais leve, mais distante, sem tentar uma intimidade que ela nunca dará.

2 Separação temporária
Tire uma ‘folga’ da sua mãe para se recompor. Diga-lhe que está a tratar de assuntos urgentes e que lhe telefona se houver uma emergência.

3 Separação total
Se tentou tudo e mesmo assim aquela relação compromete inequivocamente o seu
bem-estar, esta pode ser a única opção. Mas é raro haver quem a tome, até porque é uma opção socialmente muito malvista e condenada.

FONTECatarina Fonseca
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