Linda fábula sobre o que de precioso levamos na viagem da vida.

Luciano Cazz

Ela foi colocando tudo na mala durante um longo tempo, mas sua partida foi às pressas. Chegando em seu destino foi parada a imigração e logo indagada.

– Sua mala é grande, senhora.

– Quem pode, pode não é mesmo, meu caro?

– Sei que sua estadia por aqui será longa, mas muitas coisas são supérfluas.

Sentindo certa dor de cabeça e contrariada, ela abriu sua mala. O homem retirou alguns vestidos e sapatos. A Mulher ressaltou as grifes famosas que o homem segurava O homem respondeu que naquele lugar elas não teriam utilidade. Então, ele entregou seus vestidos para uma auxiliar.

– Eu preciso estar bem-vestida, o que pensarão de mim?

– Vai depender de suas atitudes.

A mulher, desconfortável, fez um muxoxo e se calou. O homem então pegou dois celulares, um tablete e um laptop e também entregou a sua auxiliar. A mulher os acusou de roubo. O homem estão explicou que não havia sinal de internet nem de telefone ali. E que eletrônicos não eram permitidos.

– E como vou me comunicar com os outros?

– Vai depender do tipo de pessoa que você é.

O homem continuou sua revista e encontrou duas caixas cheias de maquiagem e alguns cremes. Da mesma forma, alcançou à auxiliar para que ela se desfizesse do material.

– Ah não! A minha maquiagem! Tem uma fortuna só de cremes! Vou ficar uma velha.

– Vai depender da sua alma.

Então, ele tirou da mala uma pasta cheia de papéis. Ela explicou que eram os contratos dos meus imóveis. Citou mansões, uma fazenda e carros importados. O homem explicou que, naquele lugar, seus contratos não seriam válidos. E jogou os papéis no lixo. A mulher ficou desesperada.

– Vocês estão acabando comigo. Onde vou morar?

– Vai depender de como tratou seus familiares.

A mulher já estava muito nervosa, mas temia por uma represália, então segurou o choro. E o homem pegou 3 porta-joias na mala da mulher, que começou a tremer.

– O senhor tem milhões em pedras preciosas nas suas mãos, por favor.

– Senhora, neste lugar, preciosidade tem outro significado.

A mulher já não reagia mais. Estava em choque e inerte olhando para o chão. Ele, então, apanhou um pacote cheio de dinheiro. A mulher arregalou os olhos.

– Senhora, nossa moeda é outra. Seu dinheiro nada vale, agora.

– E como vou me virar?

– Vai depender da sua riqueza de espírito.

O homem também jogou o dinheiro na lata do lixo. A mulher se contorceu, não conseguia segurar as lágrimas de ódio e a cabeça doía muito. Ele, então, notou a mala vazia e disse à mulher que lhe faltavam algumas coisas básicas para sobrevivência nesse novo local.

– Diabos! O quê?

– Amor ao próximo e arrependimento, por exemplo.

A mulher franziu a sobrancelha chocada.

– Isso deve ser uma brincadeira.

– De forma alguma.

– Olha, meu senhor. Fiz de tudo para conseguir construir meu patrimônio. Aturei pessoas insuportáveis, abdiquei de minha família e desperdicei quase toda a minha vida. Agora o senhor me diz que de nada valeu.

– Aqui, minha senhora, os valores que importam são os da moral.

– Ora, me poupe dessa conversa mole.

– Claro. Seu passaporte, por favor.

– Um momento. Minha cabeça dói. Parece que fui atropelada.

E a mulher entregou seu documento arrasada. O homem analisou e decepcionado mostrou para a auxiliar que olhou para a mulher com dó.

– Que foi, agora. Não poderei entrar?

– Pois, então, Senhora, vejo carimbado aqui ganância, maldade, orgulho e preconceito.

– Mas que loucura é essa?!!

– A senhora tem o livre arbítrio para escolher viver ou apenas acumular.

E a mulher arrancou o passaporte da mão do homem para conferir se era verdade.

– Mas que porcaria é essa? Eu viajei o mundo todo. Onde estão os carimbos?

– A sua viagem mais importante é essa, agora, senhora.

A mulher indignada, jogou seu passaporte longe.

– Duvido! Quer saber? Devolve as minhas coisas. Meus vestidos, minha beleza, minhas propriedades, minhas joias e meu dinheiro. Porque se isso não tem valor aqui eu é que não quero entrar. Certamente, existe outro lugar muito melhor do que esse.

– Aqui é um paraíso, senhora, mas como disse, o livre arbítrio é seu.

– Chega, eu quero voltar! Não quero nem pisar em um lugarzinho chamado… chamado… Espera. Que lugar é esse mesmo?

Então, o homem apontou para uma placa logo adiante no caminho, que dizia:

“Bem-vindo ao Céu”

Foi, então, que a mulher caiu aos prantos. Ela pôde entender que mais do que cuidar do corpo é preciso ter uma alma bela, mais importante do que ter muito dinheiro, é não ser pobre de espírito, porque afinal, quando partimos dessa vida, o que vai com a gente não é o que carregamos no bolso, mas sim, no coração…

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Luciano Cazz
"Luciano Cazz é publicitário, ator, roteirista e autor do livro A Tempestade depois do Arco-íris."

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