História, empoderamento e representatividade de uma Miss

Resiliência Humana

Lembro de uma vez e isso foi assim que cheguei a essa cidade, de procurar um produto para cabelos cacheados, eu procurei em todas as lojas possíveis e não encontrei, então levei um de cabelos lisos. Lembro de outra vez em que disse que queria ser uma princesa na escola, mas ouvi de uma coleguinha que eu não poderia ser porque não existiam princesas de cabelos cacheados e eu lembro de muitas e muitas vezes que eu não me vi em algum lugar seja em uma boneca, desenho ou em princesas. Passei anos, assim como minha geração, para aprender que o nome disso é representatividade. Sentir-se representado em algo é sentir que o que você é tem importância.

Umas semanas atrás, foi anunciada a ganhadora do Miss Itaituba, cidade onde eu fui criada e resido, para minha grande surpresa esse Miss tinha algo diferente dessa vez ganhava uma negra, empoderada e esbanjando representatividade. Explicar a sensação de ver “seu cabelo” ou “sua cor de pele” sendo eleita como Miss é impossível, é como se fosse possível ver pequenas mudanças e que sabemos que essas pequenas mudanças nos levará um mundo com menos preconceito.

Hoje as marcas investem em nosso corpo. É possível ver prateleiras lotadas de produtos para cachos e as linhas de maquiagem inovando com as bases e sombras de várias cores e aqui não entra em discussão se há queda de lucros, por exemplo, o lançamento da marca de maquiagem da Rihanna, que oferecia diversidades de bases para a pele negra, parou Nova York. Nós estamos aqui! É esse o grito que estamos dando a anos, nós estamos aqui e nós compramos!

Miuria Goes é como as bases da Rihanna e é como os produtos para cabelos cacheados decorando as prateleiras das lojas, ela também é nossa representatividade. Somos acostumas a ver um padrão, cabelo liso e mulher branca, ganhar esse tipo de concurso, é sempre mostrado as garotas fora desse padrão que elas não são tão bonitas, pois elas não se veem nesses lugares. A partir do momento que colocamos uma coroa na cabeça de uma mulher negra e empoderada estamos dando outra a cada uma garota negra dessa cidade e empoderando cada uma delas!

Nesse fim de semana invadimos o cantinho da nossa querida Miss para entender um pouco dessa história, empoderamento e representatividade. Vida de Miuria não é tão diferente como de qualquer garota, exceto agora que tudo muda e precisa conciliar seu emprego de designer gráfica, faculdade, família e namorado com o preparo para as disputas de Miss Mundo dos Estados.

Apesar da distração com um maravilhoso bolo de chocolate (e sim gente pode comer chocolate, pois até Miss come) ainda consegui fazer algumas perguntinhas e em umas delas Miuria falou sobre como foi participar do concurso:

“O concurso se tornou uma realidade quando os coordenadores me viram e me acharam dentro dos ‘padrões’ de uma Miss, coisa que eu nunca achei. Eu me achava magra e um pouco alta e pronto. No entanto o meu sentido oscilava entre acho que tenho chance e posso sobreviver vendo outras meninas ganharem”

Na grande maioria das vezes temos esse pensamento, como se fosse impossível sair de um padrão que sempre ganhou, assim como eu não acreditei quando vi a pessoa que ganhou o Miss Brasil e tudo isso não é por duvidar da beleza ou capacidade das garotas e por ainda não perceber que o nosso mundo está mudando e ainda bem que para um mundo mais justo e mais representado.

O preconceito é uma realidade só que em determinados lugares são camuflados e outros são descarados e aqui, sem hipocrisia, eu não percebia comigo tanto hoje até acho que as pessoas tendem a achar bonito ou exótico o diferente. Mas quando se trata de exposição ou conquistas as pessoas começam a te visar mais e tentam achar defeitos de por que você não merece alguns méritos e onde eu vejo mais evidente o preconceito. Por vezes eu ouvi que não merecia a posição que eu conquistei tudo em virtude de que eu não estava no padrão mais que padrão é esse? Por eu não ser de Pele clara? Por meu cabelo não ficar em tão perfeito estado sempre? Por minha boca não ser tão delicada? Então a respeito do assunto eu me sinto leiga pra desenvolver conceitos eu tenho muito que aprender. Mas o que eu posso afirmar e que eu nunca deixei de fazer algo por ter esse cabelo ou essa cor.

É importante ter essa mistura, seja em concursos de beleza ou seja nas propagandas de produtos. Nós estamos aqui e queremos ser notadas! O impacto de uma representatividade pode fazer a diferença na vida de uma criança ou adolescente. Lembro quando surgiu as meninas em meados de 2010 gritando “meu cabelo é esse mesmo e não vamos alisar” foi uma verdadeira revolução, uma linda revolução. Perguntei para Miuria como é ser essa inspiração:

Uma miss negra é maravilhoso, isso se chama representatividade. O Brasil é misto e nada mais justo que mulheres negras sejam consideradas as mais lindas. Por muito tempo era tão mínima a quantidade de mulheres negras que éramos consideradas apenas as cotistas participando de um concurso só pra não parecer que mulheres negras são excluídas, mas hoje está mais igual. E que continue só crescendo a quantidade de mulheres brasileiras negras, brancas, indígenas e orientais participando destes concurso e que seja misto e que seja valorizado as diferenças. Por que todos nós somos diferentes!

Hoje posso dizer que o nosso país está com mudanças reais, infelizmente muitas mulheres e principalmente as mulheres negras ainda sofrem muito, mas cada detalhe como esse é preciso ser enaltecido, é necessário que as pessoas vejam e sintam o quanto isso faz diferença para cada uma de nós.

FONTEPrazer Laize
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