Experimente a vida com as mãos. Momentos felizes acontecem pra quem se lambuza.

Vanelli Doratioto

Um pacote de pipoca, um cheiro, um beijo. Todos nós temos o poder de voltar no tempo. De reviver o que foi bom através da nossa memória afetiva. Mas para ter o que lembrar a vida pede que a gente se entregue. Que a gente a experimente com as mãos. Assim um dia, quando a gente olhar para trás, vai ter tanta coisa bonita pra lembrar que vai ser difícil escolher para qual felicidade voltar.

Tenho um imenso carinho por Antônio. Ele é um homem detalhista, com gosto apurado e muito exigente. Antônio ama coisas bonitas e bem-feitas. Ama uma mesa bem-posta para o café da manhã, uma bela vista em uma casa grande e bem decorada e ama pipoca de canjica, daquelas que vêm em um pacotinho rosa e, às vezes, tem um gostinho de isopor com açúcar.

Eu também gosto dessa pipoca, mas Antônio a ama de paixão. É que ao colocar a bendita pipoca na boca ele viaja no tempo e volta a ser criança, quando sua mãe, que era tão doce quanto essa pipoca, ainda estava viva. Então ao lado do caviar, do bom vinho e das coisas caras da vida, um singelo pacotinho de pipoca reina feliz. A pipoca de canjica é para ele uma máquina do tempo. Custa tão baratinho, mas é através dela que ele volta a ser o menino que um dia foi.

Todos nós temos esse poder de voltar no tempo. De reviver o que foi bom através da nossa memória afetiva. Pense um pouquinho, deve existir algo que o faça viajar para um tempo bom. Sabe, há quem goste de uma bebida de ano novo para lembrar o gosto de começo. Há quem ame o cheiro de um livro antigo para voltar ao dia em que aprendeu a ler com um livro empoeirado e há quem, desgraçadamente, volte no tempo por meio de alguém.

Às vezes, acontece, dessa pessoa ser próxima, amiga, amante e confidente. Daí tudo bem. Mas quase sempre o gosto de um beijo, o cheiro de um perfume, a sensação de um toque, o timbre de uma voz, ficou em algum lugar distante. É que a vida, em alguns momentos, coloca a chave do nosso portal do tempo bem longe do nosso alcance. É, eu sei bem como é.

Mas isso não precisa ser ruim. Isso pode apenas significar que a vida quer mais de nós. Que ela quer que a gente se permita novos caminhos, novas peles, novos pontos de vista. Que a vida quer que a gente prove frutas e comidas exóticas. Que ela quer que a gente mude de lado, que a gente movimente as ideias e cadeiras de lugar. Sim, a vida quer que a gente caminhe por outras sensações. A vida quer que a gente se lambuze.

E assim, nesse nosso novo caminhar a gente vai inventar novas formas de ser feliz. A gente vai comer feijão tropeiro. Vai experimentar pisco. Vai aprender tango. E nesse aprender a gente vai amar e desamar. A gente vai guardar tanta coisa boa na gente que, logo mais, a nossa felicidade vai estar em tantas coisas, lugares e pessoas que vai ser difícil não tirar um tempinho para lembrar o bom onde quer que a gente esteja.

A gente vai entender que ser feliz é se permitir e sentir. É se jogar no que completa e satisfaz. É respirar o que é bom sem medo. É comer com as mãos. É viver pra lembrar com carinho. É viver pra provar um vinho, um cheiro, um afeto. E aí, a gente vai ter tantos pacotinhos ao alcance das mãos que vai ficar difícil escolher para qual felicidade voltar.

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Vanelli Doratioto
“Palavras são mágicas, são como encantamentos sublimes que nos levam para onde quisermos, seja esse onde um lugar, um conceito ou uma pessoa”. (Vanelli Doratioto) Minha Página no Facebook: (www.facebook.com/vanellidoratioto) Meu instagram: (https://www.instagram.com/vanellidoratioto)

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