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EXISTE VIDA BOA E FELIZ DEPOIS DE UM PÉ NA BUNDA

EXISTE VIDA BOA E FELIZ DEPOIS DE UM PÉ NA BUNDA

por Mônica Montone

Separações bruscas e inesperadas costumam nos deixar com a incômoda sensação de que nunca mais vamos nos apaixonar na vida.

Que não fomos (somos) suficientemente bons para o outro.

Que fomos enganados. Mas existe vida depois do fim. É o que mostra a comédia romântica Mesmo se nada der certo.

É mais ou menos nesse clima que se desenrola o filme americano “Mesmo se nada der certo”, do diretor irlandês John Carney.

Apesar do argumento batido – um produtor de música outsider e falido encontra num bar de NY uma jovem compositora com o coração despedaçado e, juntos, começam uma aventura musical que mudará suas vidas – a película não é nada obvia.

Não é nada óbvia porque, entre outras coisas, traz uma novidade para o mundo das comédias românticas: a mocinha não fica lamentando o amor perdido, tampouco buscando respostas para a rejeição sofrida, como fazem as donzelas que sofrem da “síndrome da heroína vitoriana”.

Gretta (Keira Knightley) acolhe sua dor, transforma-a em música e consegue extrair beleza do momento que atravessa. Depois, aceita o desafio proposto pelo produtor Dan (Mark Ruffalo) e grava um disco pelas ruas de Manhattan.

Mesmo se nada der certo é um filme que lança um novo olhar sobre a dolorosa arte de se separar que conta com Adam Levine (cantor da banda Maroon 5) no elenco e uma fotografia carinhosa para com NY.

Fato: separações bruscas e inesperadas costumam nos deixar com a incômoda sensação de que nunca mais vamos nos apaixonar. Que não fomos (somos) suficientemente bons para o outro. Que fomos enganados.

Ou seja? Um tiro de canhão em nossa autoestima. E uma pá de cal para os que têm o amor romântico como protagonista central da própria existência.

O mundo girou. O tempo acelerou. Novas leis, direitos e deveres surgiram. Hoje não existe mais “mulher para casar” e “mulher para trepar”. Homens se casam com homens. Mulheres se casam com mulheres. Relacionamentos começam na Internet.

Relacionamentos terminam por SMS. A fila anda. Existe P.A (pinto amigo). O lema é “pegar sem se apegar”. Somos todos (ou quase todos), homens e mulheres, emancipados sexualmente. Somos independentes e inteligentes.

Então, por que diabos não conseguimos aceitar as mudanças do verbo amar?

Não somos os mesmos de ontem, mas queremos que o amor seja amado e consumado como ontem.

Queremos ser o amor incondicional de alguém e queremos amar incondicionalmente alguém. Caso a receita desande, achamos que não foi amor, que não valeu a pena e/ou que o mundo acabou.

Nossa geração inventou o que Zygmunt Bauman, em seu livro Amores Líquidos, chama de “relação de bolso”, mas não sabia que o bolso era furado e que o amor cairia na sarjeta como moedas de um centavo muito antes do previsto.

Na tentativa de amar livremente, sem expectativas, criamos as relações miojo: instantâneas, enroladas, condimentadas e pesadas.

O problema é que, como o macarrão, elas matam nossa fome por pouco tempo e não alimentam.

Quem sabe as gerações futuras consigam tirar de letra o que nós não conseguimos digerir: o fato de que amores expressos pressupõem rompimentos expressos.

Por ora, podemos fazer o mesmo exercício que Gretta e Dan fizeram em Mesmo se nada der certo: canalizar o amor que sentimos por quem partiu nosso coração para nós mesmos, em nosso trabalho, em novas experiências de vida que podem nos levar a lugares nunca imaginados.

Como diz a filosofia de Facebook: o segredo é deixar a música mais alta que os problemas. Ou ir ao cinema para ver “Mesmo se nada der certo”.

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