As expectativas dos quase 30 #1

Marina Barbieri

É uma baita ilusão tudo o que nos dizem sobre os 30 anos. É tudo uma enorme, brutal e deslavada mentira. E o pior é que a gente só descobre quando percebe que tá chegando aos 30 e ainda não tá nem perto de alcançar as metas que demoraram uma vida inteira para serem planejadas.

Fazendo um resumo geral e bruto sobre a vida, me arrisco a dizer que ela se resume basicamente em construir sonhos sólidos como pedra porém em bases de folhas de isopor. Uma hora tudo o que você planejou desmorona e você se vê obrigada a construir outros sonhos do absoluto zero.

Gosto do desafio de inspirar em mim mesma novos planos e objetivos, mas a longo prazo a prática é mais cansativa do que a teoria faz parecer. Porque poucos são os que consigo concluir. E essa é uma constatação difícil de admitir e que nunca fez parte de nenhum sonho meu.

Semana passada meu primo, uma criança que deveria ter sido ensinada a pensar um pouco mais antes de falar, ficou chocado quando descobriu que estávamos comemorando os meus 28 anos.

Sem a menor cerimônia, no meio de toda a família, num dia que deveria ser feliz para mim, ele soltou:
– A Luiza tem 28 anos? Mas então ela já não deveria ser uma adulta?

Naquele momento a única coisa que eu conseguia pensar era em como eu desejava que meus tios tivessem usado camisinha.

A sala da casa de mamãe foi tomada pelo silêncio mais constrangedor que a família havia presenciado desde o velório do vovô, quando meu tio Otto, a pessoa mais sem noção que existe, contou uma piada suja e gargalhou sozinho por cerca de dois minutos ininterruptos.

Tento repetir para mim mesma “calma Luiza, você ainda tem dois anos até chegar aos trinta”, mas nem eu mesma acredito nisso. O que poderia mudar tão drasticamente em dois anos? Puff, sejamos realistas: nada. E então quando percebo que toda a minha ansiedade gira em torno das minhas expectativas em relação a uma idealização estúpida e irreal, eu me sinto ainda mais idiota do que já estava me sentindo antes.

Talvez a crise dos 30, que tanto ouvimos falar, não seja sobre outras pessoas, ou sobre relacionamento, ou emprego, filhos, dinheiro, ou sei lá, sobre o preço do sabão em pó no mercado da esquina, ou qualquer coisa to tipo, mas sim sobre nós mesmos.
O nosso maior inimigo está sempre do outro lado do espelho, não é? Seja aos 3, aos 30 ou aos 300 anos.
Quer dizer… não… retiro a última parte. Se você chegar aos 300 anos desconfio de que seus problemas serão muito maiores do que o espelho.

Passei quatro anos numa faculdade de jornalismo achando que sairia de lá a nova âncora do Jornal Nacional.
Terminei a faculdade há cinco anos e o máximo que consegui até agora foi escrever no caderno mais fútil do jornal mais desqualificado da cidade.

Idealizei escrever sobre escândalos políticos, crises mundiais, descobertas revolucionárias, a cura do câncer ou sobre qualquer outra notícia que pudesse mudar o mundo, ou ao menos impactá-lo de alguma forma.

Na vida real o meu salário provém de subcelebridades mostrando a calcinha, ou de vazamentos de vídeos pornôs amadores de subcelebridades ainda mais desconhecidas, ou de qualquer outra notícia que não muda porra nenhuma a vida de ninguém.

Estudei para melhorar o mundo, mas trabalho enchendo-o ainda mais de lixo.

Houve época em que imaginei casamento, filhos, casa própria e carro aos 30 anos. Hoje em dia tudo isso soa como piada de mau gosto.

Quase não consigo cuidar de mim mesma, e a última planta que tive, um mini cactos – que necessita de nenhum, ou quase nenhum, cuidado – morreu em pouco mais de um mês sob o mesmo teto que eu. Imagina ter um filho? Deus me livre! Para o bem dele, o meu, e o do resto da humanidade, que isso não ocorra nem tão cedo.

Morro de nojo até de cabelo no ralo do banheiro. Não consigo imaginar ter contato direto com cocô de neném sem subir um refluxo na garganta.

E quanto a casamento… Puff… aí piorou. Nunca conheci uma pessoa legal o suficiente para querer, por livre e espontânea vontade, me unir a ela pelo resto da minha vida. Se eu mudo de ideia de um dia pro outro em assuntos tão mais simples como cor favorita, música favorita e roupa favorita, vou lá ter tanta certeza de qual a minha pessoa favorita do mundo inteiro ao ponto de registrar essa decisão em cartório? Sou indecisa até pra escolher prato no menu do restaurante com umas 15 opções. Imagina uma pessoa entre 7 bilhões?

Puta merda, fiquei deitada no sofá como se não tivesse nenhum compromisso a manhã de sábado inteira e quase esqueci que combinei com Jessica de acompanha-la em mais um de seus encontros com caras que conheceu pela Internet.

Jessica se encontra com um cara diferente por semana, mas como tem medo de ir sozinha e o cara ser um serial killer ou algo pior como um cara que cospe enquanto fala, ela chama uma amiga diferente por vez. Nessa semana a contemplada fui eu. Bem, não posso reclamar muito. Pelo menos assim eu saio de casa um pouco. Já não aguento mais ficar trancada nesse apartamento.

Tive que tomar banho em tempo recorde. Para quem tem cabelo cacheado, lavar a cabeça não é tarefa fácil. Tempo é mais necessário e importante até do que o próprio shampoo.

Vesti uma calça jeans e uma blusa, presente de mamãe Natal passado, mas que ainda não me decidi se amei ou se odiei. Ela fica linda no corpo, mas é laranja. E mamãe sabe o quanto eu odeio a cor laranja. Aiiiii, se ela não vestisse tão bem! Meus peitos até parecem de uma mulher adulta, e não de uma criança de 12 anos.

Ok, foda-se a cor dela. Eu fico tão gostosa que eu até posso esquecer que estou parecendo um enorme cenourão.

Quando a campainha tocou não tive a menor dúvida de quem era. Era Jessica. Com total certeza. Ela é a única pessoa que eu conheço que toca a campainha incessantemente até o outro lado abrir a porta. E também porque ela, depois de mamãe, é a única pessoa que sobe sem o porteiro precisar interfonar.


Eu nem havia aberto a porta completamente e ela já desandou a falar do corredor, sem parar, como sempre faz.

– Amiga, que bom que você já tá pronta. Estamos atrasadas. Eu disse que o encontro era as três da tarde, mas eu me confundi. Combinei as 13 horas. Ai, que saco, eu sempre me confundo. 13 é uma da tarde, e não três da tarde. Pode acreditar? O cara tá lá desde o meio dia esperando a gente e olha que horas já são: duas e meia. Coitado!

– Eu não acredito, Jessica – respondi apressadamente enquanto enfiava o celular e as chaves de casa dentro da primeira bolsa que vi pela frente.

Descemos de escada, correndo feito duas mulas mancas, porque não quisemos esperar o elevador que estava no último andar do prédio e o Uber já estava na esquina do prédio nos esperando.

Foi entrar no carro e Jessica me solta mais uma.

– A propósito, esqueci de te avisar. Eu pedi pra ele levar um amigo. Você tá mesmo precisando conhecer alguém antes que crie teia de aranha aí embaixo, né, amiga?

Fiquei tão envergonhada que não consegui ter reação nenhuma além de olhar para o chão e torcer para aqueles segundos intermináveis de vergonha absurda acabarem logo. Mas quem teve reação foi o motorista, que não conseguiu se segurar e soltou uma gargalhada tão alta que até se desculpou no final.

Caralho, eu quero enfiar a minha cabeça no cano de descarga dessa merda de carro extremamente confortável e não sair nunca mais.

Continua…

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Marina Barbieri
Aprendeu a ler antes mesmo de conseguir segurar um livro e descobriu neles o que queria fazer para o resto da vida. Além do blog cuida de 3 gatos e é autora do livro “Fique com alguém que não tenha dúvidas”, lançado pela editora Única.