Ele(a) me deixou. Foi embora, dizendo que me ama. Como assim?

Cris Souza Fontes

Coisa estranha é o ser humano, não é? Outro dia, um leitor me disse que sua namorada o havia deixado dizendo que o amava. Ele queria entender o que isso significava. É possível você abrir mão de uma relação, se existe amor? Se ama, por que foi embora?

Bom, se voltarmos no tempo, nos romances literários de Jane Austen, nas tramas Shakespeareanas, veremos uma série de amores impossíveis, de cavalheiro deixando dama por não poder viver aquele amor, princesas prometidas a outro, sem poder amar quem elas realmente queriam… Contos de amor.

Caindo agora na vida real, quando não há sequer alguma proibição, qualquer coisa que impeça duas pessoas de se amarem, que não seja a neura delas, digo que isso não passa de uma desculpa para fugir de um relacionamento, sem magoar o outro ou deixando ainda no outro a esperança de um amor, caso num futuro, ele(a) perceba que fez besteira e queira voltar.

Tipo assim: uma mulher (ou um homem, tanto faz) diz que não quer mais viver um relacionamento, que quer separar, terminar, mas que o ama e sempre vai amá-lo. Daí ela o abandona, segue sua vida, vai para as baladas, beija outras mil bocas enquanto o parceiro está na fossa, sofrendo aquele rompimento confuso. E o outro fica assim, acreditando que é amado e vendo as fotos nas redes sociais da sua amada na maior curtição! Isso procede, produção?

É exatamente isso que deixa as pessoas confusas. Se me ama, por que me deixa?

Entenda que existem pessoas que, infelizmente, não amam nem a elas mesmas, quanto mais outra pessoa! São naturalmente confusas, inseguras, completamente desembestadas que acham que a vida acontece do outro lado do relacionamento e não sabem valorizar aquilo que têm. Não é amor. Se saírem da sua vida dizendo que ainda os amam, sem qualquer outra explicação, é porque não amam nada! Onde já se viu abrir mão à toa de alguém que se ama? Só se eu for uma pessoa medrosa demais para lidar com aquilo que cresce a cada dia entre nós.

Algumas pessoas sentem medo, devido a traumas, sei lá, e vão embora. Elas e o medo delas. Podem até sentir algo por você e alegar mesmo que está indo, mas que o ama. Ah, que coisa tola! Toda vez que eu repito isso aqui eu penso: mas que loucura? Onde já se viu ir embora, se ama e é amado? Não consigo entender.

Entendo quando eles mentem dizendo que não amam e vão embora. Daí fica mais que na cara o medo da pessoa em se relacionar ou de aceitar um sentimento. Agora, ir embora e dizer que está indo, tchau, fui, vazei, e ainda te amo? É uma das coisas mais esquisitas das quais eu tento entender!

E sabe por quem eu sinto muito? Por quem acredita. Isso, aqueles que ficam se lamentando romanticamente por que foram abandonados por alguém que lhes disse sentir, amor mas não querer viver ao lado deles. Pode?

Já vi amigos esperarem enquanto sofriam pelo retorno daquele que dizia amá-lo. E nunca voltaram ou, quando voltaram, diziam que estavam arrependidos, que fizeram besteira e que agora querem viver esse amor. Tolice! Tudo o que a pessoa fez foi arrumar um método frio e calculista de sair de uma relação para dar uns perdidos, enquanto deixa o outro dentro do freezer, esperando seu retorno, já que você ama, não é?

Amores, comportamento humano é uma das coisas mais esquisitas que existem, das quais muitas delas não compreenderemos nunca! Mas os que as pessoas deveriam deixar de fazer é esse jogo constante de manipulação, que só gera sofrimento. Uma brincadeira de mal gosto de amor.

Com amor não se brinca, com o sentimento das pessoas não se brinca. Coração é um troço delicado, frágil, que, de tão lindo, não merece maus-tratos.

Pense nisso antes de sair de um relacionamento mentindo dizendo a outra pessoa que ainda a ama. Se não tiver uma desculpa muito das perfeitas, não há razão para se deixar alguém que se ama.

Se não for uma poesia de Carlos Drummond de Andrade é apenas uma brincadeira e de muito mal gosto.

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Cris Souza Fontes
Escritora, blogueira, amante da natureza, animais, boa música, pessoas e boas conversas. Foi morar no interior para vasculhar o seu próprio interior. Gosta de artes, da beleza que há em tudo e de palavras, assim como da forma que são usadas. Escreve por vocação, por amor e por prazer. Publicou de forma independente dois livros: “Do quê é feito o amor?” contos e crônicas e o mais espiritualizado “O Eterno que Há” descrevendo o quão próximos estão a dor e o amor. Atualmente possui um sebo e livraria na cidade onde escolheu viver por não aguentar ficar longe dos livros, assim como é colunista de assuntos comportamentais em prestigiados sites por não controlar sua paixão por escrever e por querer, de alguma forma, estar mais perto das pessoas e de seus dilemas pessoais. Em 2017 lançará seu terceiro livro “Apaixonada aos 40” que promete sacudir a vida das mulheres.