Diga-me com quem andas…

Antonia no Divã

Eu não confio em pessoas sem amigos de longa data. Desculpe, mas não consigo.

Sempre que conheço uma pessoa nova, gosto de saber sobre seus amigos. Quem são, o que fazem, e como começou a amizade. Se alguém me conta que mantém os amigos de escola na vida adulta, tenho tendências fortes a criar vínculos. Caso fique sabendo que transita pelo mundo, sem levar na bagagem amizades duradouras – pode passar, mas não estou interessada.

Isso nem sempre foi assim. Quando mais jovem, me vi inúmeras vezes adicionando ao meu círculo de amizades aquela integrante nova que, por empatia, alguém trazia para o grupo. “Ela não tem muitos amigos, vamos ajudá-la”. Meses depois aquela experiência provava o seu valor. Descobríamos que a fulana era cleptomaníaca, a ciclana adorava dar em cima dos namorados das novas amigas e a beltrana sempre arrumava confusão. Ficava claro que “não ter muitos amigos” era sintoma de problemas maiores. Normalmente, problemas de caráter.

Não há prova maior do caráter de uma pessoa do que sua capacidade em manter amizades.

Hoje em dia eu já olho com mais cautela as novas aquisições. Não barro ninguém. Ora, quem sou eu? Mas também já não me entrego a novas amizades assim, “pra dar uma força”. Dar uma força a gente dá pra quem precisa e não pra criar laços e rompê-los logo ali na frente. Eu não preciso de novos amigos. Adoro fazê-los, mas não preciso. Gente, eu já tenho idade e amizade suficiente para não querer mais as vulgas “parcerias”. “Fulana é parceria, só que quando bebe fica louca.” Não, não. Valeu, eu já tenho minhas bêbadas (sou!) de estimação e amigas de verdade. E elas já me enchem as mãos. Amizade não é parceria. Amizade tem parceria, mas não somente.

Chegaria a ser engraçado se não fosse trágico. Eu percebo essas pessoas de “amigos cíclicos” tentando vender a rotatividade de suas “amizades” como o mundo dizendo que “não era pra ser”. “Deus sabe o que faz”, “Amiga (nova), é noix que tá!”. “Fodam-se os falsos”. “Se não for nós quem vai ser”. É muito passivo-agressivo numa legenda de Instagram para disfarçar o óbvio nas entrelinhas. Você não consegue manter amigos. E se não consegue manter amigos, você tem problemas. De caráter. De comportamento. De prioridades. Isso é triste, e não digno de ser comemorado com #’s e filtro Mayfair. #menos.

Óbvio que amizades são sazonais, até as verdadeiras. Mas o teste de que a distância às vezes não importa é perguntar “se numa terça-feira de madrugada, furasse o meu pneu e eu ligasse assustada para essa pessoa, ela viria ao meu socorro?”. Caso viesse, mesmo além da distância (física ou de tempo) essa pessoa é sua amiga de verdade e não importa se você não fala com ela todo dia, ou só no aniversário. Amigos de verdade funcionam numa ótica temporal diferente. Podem se reunir uma vez por ano que parece que foi ontem o último abraço.

E por falar em ontem, noite passada minhas preferidas da escola reuniram-se. Eu não pude ir, mas mandaram fotos, e eu senti um calor gratificante no coração. Sobrevivemos às provas de química e as do tempo. Eu voltei aos nossos recreios juntas em um whatsapp – veja como eu sou sortuda.

Sortuda e consciente né. Amizade requer manutenção preventiva e muito respeito. Então desconfie de quem troca de amizades a cada 6 meses. O teste é o mesmo que tu farias com um carro – se você não faz manutenção e dá porrada o tempo todo, óbvio que essa amizade não vai nunca a lugar nenhum. Que dirá uma viagem longa – e às vezes dura – como é a vida.

Então, para mim, pode encher de glamour e filtros lindos essa rotatividade dos grupinhos da hora. Amizade é atemporal e inconstante, mas permanente. Não se engane.

Desconfie de quem trata amizade com leviandade. Diga-me com quem andas, que eu te direi até onde vamos.

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS





COMENTÁRIOS




Antonia no Divã
Uma questionadora fervorosa das regras da vida. Viajante viciada em processo de recuperação. Entusiasta da escrita. Uma garota no divã figurado e literal. Autora do blog antonianodiva.com.br.