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Deixa eu te contar

Vem cá. Senta aqui e deixa eu te contar uma coisa.

Sabe, eu já passei por muito, já conheci muita gente, já vi muito e já me decepcionei mais um bocado. Já decepcionei também. Já fiz feliz e já fui muito feliz. Já mudei de ideia, já voltei atrás, já pedi desculpas e já desculpei. Já achei que algo me mataria para no final acabar sobrevivendo mais forte e melhor. Já chorei até dormir, já gargalhei até ficar sem ar. E já recomecei do zero. Dezenas, centenas, milhares de vezes. Eu estou sempre me reinventando. Não tenho medo de apertar o botão de reiniciar. Às vezes precisamos de pequenas restaurações. E se tivermos medo de fazer reformas, uma hora tudo desaba. É preciso manter a vida em constante manutenção.

Deixa eu te contar também que eu não fico onde eu não sinta mais que é o meu lugar. Não fico onde eu só vá atrapalhar. Não fico onde não sou mais bem-vinda. O mundo é tão grande, e se eu ainda não encontrei, uma hora eu ei de encontrar o meu lugar. Não tenho pressa também. Eu vou devagar, eu vou aos poucos, eu vou apreciando a paisagem. Porque, você sabe, chegar a um ponto é ótimo, mas melhor do que chegar lá, é aproveitar o caminho.

E sabe do que eu não abro mão? Vou te contar: da liberdade. E é por isso deixo tudo a minha volta o mais livre possível.

Nos disseram que a liberdade separa, afasta, empurra, mas estavam errados, não existe elo mais forte do que a liberdade. Ela une mais do que cola. Pela liberdade a gente fica, a gente junta, a gente cria laços, a gente faz moradia, a gente não vai embora nunca mais.

Mas às vezes a gente se embanana toda e justamente pelo medo de perder, a gente perde. E então só aprendemos isso vivendo. A gente só aprende perdendo.

E por falar em perder, quero te falar também que eu não tenho medo de perder, não. Já perdi muito. Já perdi tudo até quando achei que não tinha nada. E depois que você se vê no eco do vazio, você perde o medo de perder porque você sabe que é capaz de se reconstruir.

As pessoas têm muito medo de perder, de sofrer, de se machucar, de quebrar a cara. Eu não entendo o porquê. Todo machucado uma hora cicatriza. Toda dor uma hora sara. Nenhum buraco é fundo o suficiente que nos impeça de subir de volta a superfície.

E sofrer significa que você foi feliz antes, que você viveu. Só não sofre quem já morreu. Então eu deixo a vida acontecer do jeito que ela tem que acontecer: com todas as alegrias, todas as decepções, todos os ensinamentos e todas as experiências.

A gente não conduz a vida, é ela quem nos conduz. A gente só vai, como uma pena na ventania, e torce para ser o mais lindo possível.

E é. Sempre é.

A gente só precisa estar atenta para não perder nenhum momento de beleza.

Então deixa eu te contar só mais uma coisa: eu estou. E você, está?

Marina Barbieri

Aprendeu a ler antes mesmo de conseguir segurar um livro e descobriu neles o que queria fazer para o resto da vida. Além do blog cuida de 3 gatos e é autora do livro “Fique com alguém que não tenha dúvidas”, lançado pela editora Única.

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