Meu corpo não foi feito para existir. Não com a minha alma dentro, pelo menos.
Meu corpo e minha alma são incompatíveis e brigam entre si, contestam e já não sei mais como dividir os espaços dentro de mim.
Respiro fundo, a alma acha espaço e empurra minhas costelas. Minhas costas doem. A alma quer sair. Fica sufocada dentro do corpo. O corpo quer descanso, a alma quer ver a vida. A alma quer correr na praia, desfilar por cima da maresia.
O pé dói, inchado, se recuperando da lesão que alma causou.
A alma quer dançar na chuva, o corpo ameaça resfriado.
A alma quer comprar passagem só de ida, sem destino e uma mochila nas costas. O corpo gosta de lembrar que é preciso um teto, um prato de comida quente para viver melhor.
A alma é pura inconsequência, o corpo ponderado em excesso. O coração se aquieta quando eu amordaço a alma. Mas ela morde o corpo. Grita. Eu começo a me doer inteira.
Os gritos da alma se penduram no meu tímpano. A alma me cobra vida. O corpo briga pela minha paz. Ele quer meu sossego. Diz que eu mereço, já que fiz tudo na vida de alma e corpo. Agora é a vez de ser corpo e alma.
Alma egocêntrica, não aceita ser segunda voz. Quem é rei não quer perder a majestade. Nem a coroa, nem o cedro. Meu corpo pede divórcio da alma, ela não recusa. Agora não tenho pra onde ir. Acho vou-me embora pra pasárgada.
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