Da pobreza à riqueza: a história da ex-mendiga que se tornou empresária

Resiliência Humana

Aquele que vence é porque não olha nem pra buraco, nem pra seca, nem pra obstáculo, nem pra nada. Olha pra frente e vence. Deus me tirou da lama e me colocou em um lugar seguro. Com essas palavras, Deuzuita Gomes tapou os muitos buracos de sua vida. Mas nenhum foi maior e mais difícil de sair do que o abismo que a levou diretamente ao chão. Deuza, como gosta de ser chamada, foi moradora de rua durante anos, mas frisa bem que foram o trabalho e o sacrifício, as mãos que lhe sustentaram para erguê-la do chão, da miséria e da imundícia.

Deuza está na flor da idade da disposição. Aos 62 anos, apresenta um olhar aparentemente cansado, mas tão vivo, que tudo para ela pode se transformar em oportunidade. Requisitada por clientes, a cabeleireira profissional não hesita em falar de si mesma. Teve uma vida tão sofrida no passado que o que mais quer é esquecer a miséria, apesar de sempre lembrar-se dela.

A vida no sertão

Quando chegou à cidade grande, Deuza era uma caipira do sertão. Estranhava tudo em São Paulo, pois era completamente diferente da vida na roça. Com o pai já falecido, só lhe restaram a mãe e avó no Maranhão. Mas no interior do Brasil, a morte geralmente tem nome e cor. E foi a febre amarela a responsável pela ida da mãe.

Então, sozinha num lugar esquecido e com uma idosa para sustentar, Deuza não tinha outra opção a não ser se apegar aos seus pensamentos e aos desejos de um dia sair dali para conquistar. “Não é que eu não quisesse trabalhar na roça, mas eu sabia que lá não ia conseguir ser grande. Eu queria vencer, queria ser alguém na vida, dar uma vida melhor para a minha avó, diz ela.

Até que um dia, ainda no sertão, viu que a esperança também anda de ônibus, carro e até a pé. Mas foi na boléia de um caminhão, no chamado pau-de-arara’ que, sem titubear, Deuza embarcou, aceitando o convite de um casal que passaria a morar em São Paulo.

A vida nas ruas Já na capital paulista, Deuza conviveu com o casal por algum tempo. Um pequeno quarto com uma cama, no porão de uma casa antiga, bem no centro da cidade era aglomerado por ela, o casal e os filhos. Da mesma comida, todos se beneficiavam. Mas a falta de espaço a fazia dormir estirada no chão, quando as lombares não suportavam mais a dor de dormir sentada. Na época, tinha apenas 18 anos, e já estava se tornando um peso para quem a trouxe do sertão maranhense.

Um dia, Deuza fora obrigada a abandonar seu abrigo. A comida, já pouca para tantos, foi o motivo principal da expulsão da sertaneja. Desempregada, analfabeta e sozinha, ela fora lançada para a rua. Mas nem a raiva e a mágoa se atreveram em acompanhá-la, porque se recusava sentir qualquer sensação negativa contra alguém. A trouxa de roupas de Deuza conduzia não apenas seus retalhos, mas toda sua herança trazida de sua terra. Nas mãos, sua pobreza, mas na mente os pensamentos de que um dia iria enriquecer. Com essa esperança, saiu pelas ruas do centro sem rumo ou destino.

Com a noite chegando, Deuza já sentia o frio de São Paulo. E um viaduto foi o local mais quente que podia encontrar. Mas, descendo ao novo abrigo, viu que a frieza da cidade não estava apenas no clima, e foi preciso um acordo entre os outros moradores de rua para que pudesse ficar. Cada morador tem seu cantinho reservado. Quem nunca passou um dia na rua não tem idéia de como é morar com mendigos. A primeira coisa que as pessoas dão é pinga. Então, eles ficam dependentes. Pelo menos com a pinga dava pra enfrentar o frio, a fome. A comida que davam era azeda, estragada, fazia mal. A gente até apanhava também. Quando a gente pedia comida, jogavam água, batiam, revela.

Ainda nas ruas, Deuza perdera a noção do tempo. Nem sabe ao certo identificar o período em que ficou vivendo de restos e na companhia de outros ninguéns que, assim como ela, tentavam sair da difícil situação. Os invisíveis, como são considerados, eram os companheiros entre si, que, sem serem vistos pela sociedade, faziam da própria vida espelho uns dos outros.

Mas Deuza se destacava: Convivi com médicos que vieram de outros estados para fazer curso de especialização e as portas se fecharam; advogados; mas eu sempre dizia que ia sair daquela situação e eles debochavam de mim. Eles eram arrogantes, mesmo vivendo nas ruas, contavam vantagens pra querer dizer que eram melhores, e não baixavam a cabeça. Então eu pensava se eles que são tudo isso não conseguem sair das ruas, será que eu vou sair? Mas eu dizia que ia sair.

Com essa determinação, Deuza corria atrás de uma porta de saída antes que ficasse aprisionada para sempre nas ruas. Ela andava e percorria diversas avenidas, esquinas, quarteirões, e não achava a saída. Mas encontrou a porta de entrada, que daria início ao fim de sua estadia nas ruas, na Igreja Universal. O pastor disse a senhora vai trabalhar e vai fazer um sacrifício. Sacrifício é tentar sair da situação que eu tava de vida de mendigo. Você vê, uma palavra forte, positiva, te abre mais o desejo de vencer do que um prato de comida, conta Deuza, que havia entrado na igreja para pedir ajuda.

Com a palavra positiva do pastor na cabeça, Deuza saiu para vencer. Continuava sem rumo, mas já sabia por onde iria começar a nova trajetória de sua vida. O sacrifício era a chave, mas como usá-la? Pedir dinheiro nas ruas é difícil de ganhar. Quando alguém dá é 5 centavos. Se ganhasse 1 centavo eu guardava, achando que aquele dinheiro podia se multiplicar. E ainda completa: Pra você conseguir alguma coisa na vida tem que ter mania de grandeza e colocar em prática. Tem que pensar naquilo e trabalhar para que se realize”.

A mania de grandeza de Deuza a fazia sempre pensar alto porque sabia que ia conquistar. Para ela, o tempo era mais uma perna que a ajudaria na caminhada, mas essa determinação incitava a revolta de alguns moradores. E por já estar frequentando a igreja, decidiu não compartilhar do que os outros moradores faziam. Não pense que morar nas ruas é ficar apenas sentado em cima do papelão. Se não entrar’ no que eles querem, apanha deles também. Não é que não eu não quisesse me misturar, mas é que eles queriam se prostituir, e eu não. A prostituição era entre eles mesmos e se você bobear, se prostitui. Então, eu apanhava quase todos os dias por não querer isso. São lembranças ruins, mas que me firmaram,afirma.

Nasce uma revolta

Um dia, ainda morando nas ruas, Deuza saiu pedindo dinheiro para todo mundo. Alguns davam, outros não. Mas um rapaz, bem vestido e apressado, deu a ela muito mais que esperava, porque não era só dinheiro a necessidade de Deuza. Foi então que uma palavra dura e agressiva a despertou para a luta. Depois daquela palavra que recebi na igreja trabalho e sacrifício, fui pedir dinheiro para um rapaz na rua e ele me disse que não ia dar; que era pra eu ir trabalhar, porque a gente (os moradores de rua) só queria ficar na vagabundagem. Essa palavra vai trabalhar era dura, mas me deu ânimo. Eu fiquei com aquilo na cabeça…. trabalho é se jogar, não importa como ele é, completa.

E foi com esse pensamento que Deuza seguiu em frente. De porta em porta ela batia em busca de seu próprio sustento. Até que após muitos nãos, encontrou na calçada de um pequeno bar e restaurante de uma família japonesa o significado da palavra trabalho. No primeiro dia que bati lá, ele me disse não, com roupa suja, não! No segundo, ele já me deu uma vassoura pra limpar a calçada. Depois de um tempo, ele me deixou morar em um quartinho nos fundos.

Como não sabia o significado das letras, Deuza aprendeu no Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização, direcionado para adultos e promovido pelo Governo Federal na década de 1970), a ler e escrever a própria história. Às vezes, as forças limitavam a segurar o lápis, mas daí em diante foi um passo para fazer um curso de cabeleireiro, montar um salão com três colegas e sair do barzinho.

Nas conquistas, uma lição Deuza dedicava-se tanto ao que era pregado na igreja, que temia fazer qualquer coisa errada. Sacrifício sempre. Quer duas palavras para quem está caído? Trabalho e sacrifício. Não existe outra saída. Pode tentar qualquer coisa, mas não existe. Quando você tem que vencer, a própria natureza te ajuda pra isso, ensina.

Nessa fé, após alguns anos como cabeleireira, Deuza conseguiu juntar dinheiro e comprar um terreno de esquina no bairro do Morumbi, zona sul e privilegiada de São Paulo. Hoje, o terreno é uma mansão de dois pavimentos, com revestimento externo importado. Dentro, um salão de beleza e estética e várias salas comerciais alugadas. Atualmente, ela só faz administrar os negócios da empresa. Quando você se torna um empresário tem de tomar conta de tudo. Tem contador, advogado, funcionários…, conta ela, com uma determinação de quem ainda quer conquistar muito mais. “Quando você coloca no seu íntimo que quer ser alguém e crescer, nunca ser desonesto e sacrificar, você vence, afirma convicta.

Para Deuza, há pessoas que nasceram para vencer porque essas acreditam que vão conseguir: A pessoa que não acredita não vence. As pessoas nascem para desfrutar de tudo o que há na terra, mas muitas não trabalham duro para conquistar. Não é que a pessoa não nasceu para vencer, é que ela não se empenha em trabalhar duro e sacrificar para alcançar tanto quanto o outro alcançou. O sofrimento, as batalhas, é que fazem vencer. Não é porque fiquei um período nas ruas que achava que ia morar a vida toda ali. Não! Isso me fez tomar ânimo para não cair. E não vou cair mais. Tenho certeza de onde saí e pra lá não vou mais voltar. Eu temo quando penso em fazer coisa errada, porque eu sei que o mal vem contra mim. Cada vexame passado na rua me fundamentou.

Deuza tem vontade de voltar às ruas. Desta vez, para mostrar sua história àqueles que acham que lá é a saída e dali não há escapatória. Quer mostrar nas praças por onde passou um trecho de sua vida, rodado pelas lentes de uma câmera. Deuza, registros de um milagre’ será exibido em alguns pontos da cidade para quem quiser assistir. Mas o público-alvo principal será de mendigos, sem-tetos, jovens viciados, e tantos mais invisíveis que Deuza conseguir enxergar para salvar.

FONTEGuia Me
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