Como sobrevivi (a mim) em Piracanga

Mariana Albanese

Você realmente quer entrar em um processo de autoconhecimento? Então esteja pronto para ele acontecer o tempo todo, muito além do seu controle. Você já não decide as experiências que viverá, onde quer vivê-las, porque a verdade é que não tem capacidade para isso. O máximo que pode fazer, sendo bem comportado, é se deixar levar. Quem te leva, porém, é um guia interior. Um que você não consulta. Simplesmente ouve o que ele diz quando consegue ficar um pouco em silêncio.

Pensei nisso enquanto olhava estática para a água, em um fim de tarde na beira do Rio Piracanga, na ecovila de mesmo nome no sul da Bahia.

Eu tinha acabado de participar da Awaken Love Mantras, entoando, emocionada, os cânticos em sânscrito junto com os demais moradores e turistas da comunidade, em uma cena que era – literalmente – de clipe. Tanto porque estavam filmando com drones, quanto porque me remeteu a um vídeo do YouTube que eu assisti um zilhão de vezes, em que a comunidade canta a música O Vilarejo, do Arnaldo Antunes.
Isso seria apenas uma experiência maravilhosa se:


– Todas as vezes em que eu assisti a esse clipe não tivesse pensado em como aquela era uma vida idílica de gente branca privilegiada, em que tudo era bonito e caro. Uma vida de “portas e janelas sempre abertas pra sorte entrar” que eu queria ter, mas pensava que não “numa vila de playboy”.

– Se não tivesse me negado, por vários meses seguidos, a simplesmente descer a rua onde eu trabalhava em São Paulo e ir na Awaken Love House participar de uma roda de mantras. Não fiz isso nem quando era uma vigília pra evitar a eleição do Trump, porque não “me identificava”.

Apesar de estranhamente ter desenvolvido uma vontade-necessidade de ir à Bahia desde que entrei no meu processo de entendimento, Piracanga definitivamente não era meu destino. E a quantidade de (pre)conceitos que carreguei comigo até a ecovila, que fica próxima de Itacaré, me rendeu uma enxaqueca histórica ao chegar lá.

Em um processo que notei novamente em Alto Paraíso, lugares como estes em que há uma abertura para algo superior te dão uma surra das mais intensas e – literalmente – doloridas enquanto você não para de julgar e racionalizar tudo e entra naquela vibração.

Nossa, mas quanto sofrimento. Então eu fui lá contra minha vontade?

Óbvio que não. Eu fui porque fiquei enlouquecida pela Osho Neo-Rebalancing, uma terapia de toque meditativo que foi adaptada no Brasil pelo casal italiano Samadhi e Sasha, que há oito anos criou o Oshobahia, praticamente junto com o nascimento de Piracanga. Estávamos juntos na estrada há quase um mês (fiz um curso com ele em Alto Paraiso e depois convivemos por duas semanas no Osheanic Festival, no Ceará). A ideia era trabalhar com eles (acabamos não chegando a um acordo financeiro) e fui até lá conhecer o espaço.


Eles possuem uma formação de terapeutas que envolve convívio em grupo, alimentação, processos terapêuticos, bases sobre permacultura e, oh, a técnica em si. Pra mim, é o que deveria ser o pré-requisito para qualquer um atender (me incluo nisso).

Cheguei lá com um olhar profissional, mas não conseguia parar de julgar. Era uma violência dentro de mim. Me irritava a ideia de como alguém poderia morar em um lugar que não tem nada pra fazer (o que não é verdade. Mas, de toda forma, por acaso é problema meu?).

Depois, eu queria os orixás. Estava na Bahia e não vi absolutamente nada da cultura afro por lá. Entrei naquela onda de: “aqui tem um monte de gente branca do sudeste, servida por negros, seguindo uma linha meio hinduísta meio sei lá o quê. Cadê os tambores?”.

Cadê ficar quieta?

Eu só pensava. Só julgava. Eu não parava.

Mas então, ao mesmo tempo em que a enxaqueca foi cedendo, a resistência também se desfez. Sem qualquer advogado de defesa, Piracanga me venceu.

Não é que eu encontrei boas respostas para as minhas perguntas, elas simplesmente não precisaram mais ser respondidas. Comecei a sentir tudo de uma forma muito intensa. Parecia que tinha tomado ayahuasca. Percebi que não se descobre a mágica de Piracanga da noite pro dia, leva tempo.

Lá, tive conversas transcendentais. Experiências individuais que posso considerar “místicas”.

Não tinha mais nada a ver com se apartar da sociedade, mas de entrar em outro campo de existência, uma outra dimensão mesmo. Me lembrei da conversa que eu tive uma vez com um morador de rua super inteligente, e percebi que se não achasse meu lugar em um outro mundo dentro deste mundo, acabaria na calçada igual a ele, que não conseguia aceitar uma sociedade sem amor.

Foi também um mergulho profundo no meu “eu terreno”. De entender pontualmente a quantidade de lixo que eu gero, sentir o prazer de estar em comunhão real com a natureza, não tendo ela como cenário, mas me inserindo tão fortemente naquela essência que de certa forma virei bicho, no sentido de perceber que quanto mais humana eu for, mais vou evoluir. Quanto mais a gente se afasta do nosso corpo, das necessidades básicas, quando não tem coragem de olhar e falar do seu cocô, quando cria a desconexão com o parto tercerizando isso para uma cesariana desnecessária, aí, sim, vira bicho no pior sentido.

Saí de lá certa de que voltaria em janeiro para a formação, o que não vai acontecer. Mas só pelo meu estado de espírito e pela fluidez dos dias adicionais que passei em Itacaré, pela integralidade do meu ser naquele pedaço da Bahia, tenho certeza de que ainda há muita história para viver por lá.

[Sobre a questão social, concluí que eles estão vivendo a vida deles, sem poluir, levando autoconhecimento adiante. Há questões internas da comunidade versus regras que estão sendo conversadas. E a real é que sou uma branca privilegiada irritada com privilégios dos quais eu mesma usufruo. Sobre a egrégora afro, bobinha eu de achar que qualquer lugar na Bahia está deslocado dela].

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Mariana Albanese
"Jornalista, produtora e terapeuta em permanente construção. Terapeuta do Deserto é o nome que encontrei para representar meu “eu pensante” em transformação - movimento este que, confesso, não pedi. Mas ao entrar em contato profundo comigo a partir do yoga e depois de outras mil ferramentas de autodesenvolvimento, o processo se tornou sem volta. Compartilho minhas experiências e visão deste despertar, agora aportando na mágica cidade de Alto Paraíso de Goiás.

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