Coaches ou vendedores de ilusões?

Jackson César Buonocore

Coaches ou vendedores de ilusões? São aqueles que atuam em setores que não são de sua competência técnica.

Cada macaco no seu galho é uma expressão popular que significa que cada pessoa exerça a sua atribuição, sem se meter no que não deve, porque a população sabe pela experiência que surgem criaturas que extrapolam os limites. Estamos falando dos “vendedores de ilusões”, que atuam em setores que não são de sua competência técnica.

Isso vem ocorrendo com sujeitos que se intitulam coaches.

Estima-se que há 40 mil coaches no País, que oferecem “soluções” aos seus clientes para alcançar a cura, o sucesso e a felicidade.

Porém, tem gerado desconfiança nos brasileiros, uma vez que não existe regulamentação e nem fiscalização nos cursos de “formação” nessa área.

Não estamos dizendo que são todos os coaches que agem assim, mas são as constatações dos descaramentos de inúmeros indivíduos que se intitulam coaches.

O que levou a indignação de um jovem cidadão, que reuniu 21 mil assinaturas numa proposta pela criminalização da atividade, que está tramitando no Senado, além de quatro projetos semelhantes na Câmara dos Deputados.

O termo em inglês de coach significa “treinador”, aquele que, no esporte ajuda o atleta a manter o seu desempenho.

Apesar disso, tal atividade se expandiu à outras áreas, no sentido de auxiliar os indivíduos a evoluir o seu potencial através dos negócios, da alimentação, da mente, da saúde, etc. Todavia, nem todos os coaches estão qualificados para cumprir a função.

Na realidade, o coaching é um movimento que usa procedimentos que permitiriam às pessoas ou grupos a questionar sobre suas crenças e atitudes, tomando decisões que poderiam contribuir para o seu desenvolvimento, apenas isso.

Porém, ele não é uma ciência como psicologia, psicanálise, sociologia e filosofia. E tampouco uma terapia, que não pode tratar problemas psíquicos e emocionais.

No entanto, existem coaches que atendem em seus consultórios, que garantem fazer a reprogramação do DNA, a cura quântica das doenças, a reversão do autismo e o coach oncológico.

E há outras modalidades bizarras de cursos de coaches, que são oferecidas na internet: coach financeiro de gratidão, coach de educação masculina infantil, coach de animais e coach de coaches, etc.

Além disso, têm os coaches que afiançam aos seus clientes que eles ficarão milionários, com o argumento de que tudo que acontece na vida é resultado do seu “mindset”, ou seja, da sua forma de pensar.

Em um vídeo na internet uma palestrante que se apresentou como coach, na mesma linha do mindset, afirmou que, durante o Holocausto, os judeus se entregavam porque não tinham um objetivo maior.

Essa é uma situação muito perigosa, visto que certos coaches estão falando sobre temas que não possuem domínio. O que indica que existem cursos no mercado de coaches que sequer exigem o ensino médio para fornecer certificação, invadindo áreas – com bases teóricas e científicas – de psicoterapeutas e demais profissões de nível superior.

É importante reafirmar que não são todos “farinha do mesmo saco”.

Então, não podemos criminalizar atividades que podem ser disciplinadas por lei, pois tem gente que atua com retidão nas suas profissões, da mais humilde a mais complexa, que não coloca em risco o bem-estar social, físico e mental da população.

Portanto, a maior garantia é de que vivemos em uma República, em que todos devem ser tratados pelos seus méritos. E os consumidores são livres para gastar o seu dinheiro em serviços e produtos que lhe convém, mas é dever do Estado definir as regras das titulações e atividades, bem como punir os vendedores de ilusões. Aliás, o charlatanismo já é tipificado no artigo 283 do Código Penal.

Foto: Meramente ilustrativa

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Jackson César Buonocore
Sociólogo e Psicanalista