Chega uma hora que o coração só quer paz e um amor amigo

Bruna Stamato

Quero um amor que queira estar comigo amanhã. Depois que a festa acabar, depois que o som parar, depois que a ressaca melhorar, depois que todo mundo for embora. Cansei de paixão que se evapora.

Com o tempo aprendemos que o meio-termo, o equilíbrio, tem seu valor, e que aquela coisa do “ou 8 ou 80” é um tanto cansativa, bem como excessos e exageros. O tempo também não ensina a apreciar o morno, o vento ameno… a enxergar além do que os olhos podem ver. Deixamos de semear ligeiro, qualquer coisa que seja, e de ansiar demasiadamente pela colheita. Nós nos preocupamos mais com o que é plantado.

O passar do tempo nos faz ver graça nas exacerbações das paixões recém-nascidas; dos porres em público, das crises de ciúme desmedidas. Faz-nos sorrir diante de um casal jovem apaixonado e aquece o nosso coração com tais lembranças que também vivemos um dia.
A paixão tem sua valia. Nenhum ser humano pode se declarar verdadeiramente FELIZ e VIVO, sem nunca estar apaixonado, ao menos uma única vez. Paixão é adrenalina direto na veia, é loucura consentida. Paixão não tem razão de ser, nem porquê; não se explica.
Mas o amor… ah, o amor é outro departamento…

Há tempo para tudo nessa vida, épocas e épocas. Paixões cruéis, desenfreadas e amores tranquilos no embalo da rede.
Eu, não quero mais paixões que me tirem o fôlego, o sono e o sossego. Eu já as vivi. Hoje, tudo que eu quero é um amor amigo, cúmplice, que me permita respirar com tranquilidade e me deitar em teu peito para dormir. Tendo a certeza de que estou exatamente onde deveria estar, com tudo em seu lugar e no melhor lugar do mundo.
Eu tenho a mania de ouvir meu coração e segui-lo, e ele só pede por PAZ.

Nada mais de brigas ciumentas madrugadas afora, de incertezas de paixões frívolas, de lágrimas por amores inventados e não correspondidos.
Meu coração é navegante nato, nunca recusamos uma aventura, nunca tememos ondas maiores. Nunca nos apavoramos nas tempestades. Mas marinheiros veteranos também precisam de um porto seguro.
E meu coração, agora, quer a calmaria de um oceano pacífico.

Quer um vinho com um blues baixinho e pés se aquecendo debaixo do cobertor. Quer todo o louvor e glória de uma rotina comum e tranquila. Minh´alma já aprendeu para quem se entregar – ou não – e por isso já não precisa mais de olhares arrebatadores que nos despem em segundos. Ela quer olhares apaziguadores de guerras nucleares internas; olhares amigos e confidentes. Olhares compreensivos e sorridentes, daquele tipo que, sem precisar dizer uma palavra sequer, nos faz compreender tudo.
Nosso organismo cansa e se intoxica. De gim, de açúcar e de vodca em excesso. De baladas cheias e almas vazias. De gorduras e carboidratos deliberadamente. De brigas e voltas banais, de promessas de amor fugaz… de parceiros sazonais. De gente que fica só quando quer.

Certas épocas, a gente desenvolve intolerância a glúten, a lactose, a gente fútil, a relações conturbadas. Fazer o que?!
Eu desenvolvi intolerância a pessoas complicadas, que não sabem o que querem. Não consigo mais conviver com gente cheia de “porém”, que diz que vem e não vem, que quer vir, mas não pode, que não se decide. Tenho alergia em último grau de gente possessiva, que apelida dependência de amor, que quer jogar suas culpas e bagagens para que as carreguemos.
Hoje aprecio comidas leves; pessoas leves. Amor light. Com tempero natural, sabe? Nada de muito condimentado e ardido.

Aprecio as delícias de se ficar em casa uma sexta à noite, e aprendi a adorar a minha própria companhia, por isso, hoje posso oferecê-la, sem medo de que alguém a rapte, a quem realmente vale.
Quer estar comigo? É para sermos felizes juntos. Não quer? Uma pena, siga seu caminho, eu continuarei no meu.
Não busco mais alguém que vire meu mundo de ponta cabeça, que me faça perder o rumo, que me tire do meu eixo. Hoje, prefiro quem caminha no meu ritmo, na mesma direção que eu e que me ajude a recuperar o eixo sempre que eu o perder.

Hoje sou feliz com risadas e pipoca no sofá, no almoço de aniversário de 90 anos da tia-avó, no passeio com os sobrinhos no parque aos domingos, com planos para as próximas férias, mesmo que seja aqui pertinho, e com as reais possibilidades que um bom amor nos dá… não mais viver nas nuvens. Satisfaço-me plenamente com meus pés no chão.
Com CONFIANÇA, com respeito e amizade sincera. Cansei de jogos. Hoje eu quero apenas brincar…
Cansei de me esforçar para agradar, de viver em eterna competição com quem dorme ao meu lado. De não saber o que será do amanhã. Quero acordar sem sustos.
Aprendi a gostar do amanhã.

E quero um amor que queira estar comigo amanhã. Depois que a festa acabar, depois que o som parar, depois que a ressaca melhorar, depois que todo mundo for embora.
Cansei de paixão que se evapora.
Agora, eu quero ser aquele amor que chega para ficar.

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Bruna Stamato
"Mãe, mulher, geminiana, maluca e uma eterna sonhadora!"

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