CARTA DE UMA FILHA QUE PERDEU O PAI ESCRITA PARA OS FILHOS QUE OS PAIS NÃO PARTIRAM

Thamilly Rozendo

Cresci em um lar com a presença de um pai, uma mãe e uma irmã. Mas percebi que apesar de viver mais de vinte anos ao lado do meu pai, eu não o amei o suficiente, nem valorizei e aproveitei como poderia ter feito. Sabe quando te dizem para viver algo ao máximo antes que aquilo acabe? Então, é isso que vim aqui te dizer. Se você é um filho ou filha que tem um pai vivo ao seu lado, mesmo que seja um pai adotivo ou um tio, avô ou padrasto que te criou como sendo dele, aproveite essa pessoa ao máximo, pois por mais clichê que seja não fazemos ideia do que será de nós no dia de amanhã. Mas também escrevo dizendo que há pais vivos que não quiseram assumir a paternidade e deixaram o filho com a sensação de ter um pai que já partiu. E sobre eles escrevo que são pessoas que cresceram com um pequeno buraco no peito e que vez ou outra sentem profundamente essa ausência, e por eles também te digo: aproveite ao máximo a figura paterna que você tem ao seu lado, pois nem todos tem essa benção.

Mas eu sei que é normal nos acostumarmos com a nossa família e nos habituarmos com a frieza que não permite dizermos que amamos nosso pai, de acharmos que um dia falaremos essa simples frase e que agora não precisamos dizê-la, porém a verdade é que ninguém faz ideia de quanto tempo nos resta aqui. Não sabemos o que vai acontecer e aprendi sobre isso ao refletir sobre minhas atitudes meses antes do meu pai falecer. Eu vivia como se tivesse a absoluta certeza de que ele estaria ali comigo o resto da vida. Lembro-me de que tive oportunidades de viajar para ficar mais perto dele, pois atualmente moro longe da família, mas preferi ficar onde estava com a desculpa de que tinha que estudar e se viajasse iria atrapalhar meus estudos. Até hoje me arrependo desse momento, pois me lembro do meu pai me telefonando e dizendo que me queria lá naquele feriado, porém eu não fui.

Pausa para chorar, respirar e tentar enxergar as palavras que estou escrevendo. Voltando. Eu também me lembro do meu mau humor durante alguns momentos que passávamos em família e que quando eu me chateava com meu pai eu demorava em perdoa-lo. Eu também gostava de ficar sozinha fazendo minhas coisas em vez de ficar mais ao lado dele conversando sobre como tinha sido sua infância, juventude e fase adulta antes de eu nascer. Eu gostaria de ter conhecido mais meu pai. De ter descoberto mais de seus segredos, de ter ouvido mais de suas histórias e de ter falado o quanto ele era incrível, engraçado e que eu havia sido profundamente abençoada pelo fato dele ter permanecido na minha vida, ter me aguentado, amado mesmo sem eu merecer e me dado o que eu precisava. Eu deveria ter agradecido mais a comida maravilhosa que ele fazia só por minha causa e de ter tido mais paciência quando ele ficava estressado por causa de alguma coisa que não saiu como o esperado.

Todavia, o tempo não volta. Tudo que eu gostaria de ter dito, feito e dado para ele, são coisas que não podem mais ser executadas. E isso dói muito. Mas sabe o que mais dói? Ficar me imaginando na minha formatura da faculdade e não olha-lo no meio da multidão. Pensar que entrarei na igreja sozinha no dia do meu casamento e que ele não segurará no colo o neto que terá o nome dele. Se perder em lembranças que nunca construiremos me mostra novamente o quanto eu deveria ter aproveitado mais meu pai. Ter deixado de lado minhas reservas e passado mais tempo com ele. Ter puxado mais conversas, ter lhe presentado com mais dos meus sorrisos, ter segurado mais em sua mão e acariciado mais o seu rosto com a barba branca crescendo aos poucos. Ter dito a ele que sou tão parecida com ele em caráter e personalidade que tinha momentos que eu parecia saber o que ele estava pensando, e ter agradecido as vezes que ele adivinhava o que eu estava pensando sem eu precisar dizer uma única palavra. Ele tinha o melhor senso de humor desse mundo e amava viajar, pescar, ouvir músicas antigas. E eu deveria ter aproveitado mais ao invés de reclamar como eu fiz tantas vezes.

Por isso, para você que é um filho ou filha que tem um pai ao seu lado, não importa se é de sangue ou não, ou qual o grau de parentesco na árvore genealógica, o valorize. Ria mais com ele, saia mais com ele, agradeça mais o que ele faz por você, o respeite quando ele exercer a autoridade que ele tem por direito, o obedeça sem reclamar quando ele pedir algo e não diga que vai fazer depois, elogie a comida dele, agradeça com um grande sorriso quando ele for te buscar nos lugares. Mas, sobretudo, diga que o ama. Talvez seu pai seja brigão, resmungão, você o ache chato, gosta de pegar no seu pé e as vezes te ofenda com palavras, e você já tenha pensado ou dito a ele que não gostaria que ele fosse seu pai. Talvez seu pai seja um homem honesto, íntegro, calmo, mas as vezes não demonstra muito interesse com o que você está fazendo e não sabe valorizar o filho que tem. Porém, apesar de tudo isso, não importa as qualidades ou defeitos, se ele é rico ou pobre, bacharel ou analfabeto, perdoe-o, valorize-o, ceda, dê o braço a torcer.

Você não faz ideia de quantas lutas ele deve ter passado para te sustentar. Você nem sabe quantas vezes ele já chorou escondido com medo de te perder. Ele pode parecer durão, ás vezes frio e calado, mas ele tem um coração cheio de amores por você, por isso está ao seu lado. Ele pode não demonstrar o amor que sente e te tratar mal em várias ocasiões. Ou ele pode te encher de beijos, paparicar, cantar para você e te dizer para todo mundo o quanto sente orgulho de ser seu pai. Mas esse cara aí sente algo grandioso por você. E você e nem ele fazem ideia do quanto de tempo que ainda lhes resta. Não sabe o que o amanhã lhe reserva, então aproveite ao máximo o que você tem com ele. Que o dia dos pais não seja apenas no segundo domingo de agosto, mas seja um dia levado á sério em cada dia do ano. Pois ser pai é integral e cobra dele uma luta diária.

Por fim, para os filhos que como eu, perderam o pai enquanto o céu os ganhou, ou tem pais vivos, porém ausentes, nós não somos órfãos, nós temos um Pai que nos ama incondicionalmente mais do que tudo no mundo, pois criou o próprio mundo para mim e para você. Esse Pai que nunca dorme, nunca cansa, nunca desiste. Esse Pai que nos dá o que precisamos quando nem sabemos que precisamos e então não pedimos a Ele. Esse Pai que ama e cuida até mesmo daqueles que não querem ser seus filhos. Esse Pai que enviou Jesus, nosso Irmão mais velho, para levar sobre si nossos erros, defeitos e culpas, e por isso foi condenado a uma morte de cruz. Esse Pai que é o Autor, Criador e que sustenta tudo. Ele te ama, me ama, nos ama. Ele deseja ouvir nossa voz todo dia, nos guiar, aconselhar e ajudar. Ele deseja nos sustentar, andar conosco na rua, e realizar os nossos sonhos. Ele continua sendo bom e quer curar essa ferida que tem no seu coração por você não ter mais um pai terreno. Deixe-o entrar na sua vida. Ou não. É uma escolha sua, pois no amor verdadeiro há liberdade de crença, não ter fé e refletir sobre esse assunto. Enfim, você é amado, mesmo sem saber disso.

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Thamilly Rozendo
Estudante de psicologia, apaixonada por artes, música e poesia. Não dispensa um sorvete e adora um pastel de feira com muito requeijão, mesmo sendo intolerante a lactose. Tem pavor de borboletas, principalmente as no estômago.