Carta de despedida. Já é passada a hora de dizer adeus.

Marian Koshiba

Já é passada a hora de dizer adeus. Não que isso não tenha sido feito há anos atrás. Mas parece que tem algo energético, cármico, quase tangível que ainda nos liga. E eu não aguento mais isso, eu não quero mais isso, eu não mereço viver com uma sombra antiga em uma vida nova.

Nós éramos muito novos. Não sabíamos nada da vida. Por conta disso, muitos erros foram cometidos de ambas as partes. Não sabíamos nada sobre nós mesmos. Por isso achávamos que havia algo ali pra lutar por, mas a verdade é que crescemos cada dia mais diferentes em todos os níveis, e o abismo foi ficando insuperável.

Mas hoje não. As coisas pelas quais passei, com você e sem você, nesses anos todos, me ensinaram muito sobre a vida, sobre o mundo, e, acima de tudo, sobre mim mesma.

Quando eu te digo que não sou nada daquilo que você conheceu, o que tento dizer é, principalmente, que tenho uma visão clara demais para estar numa relação que, hoje, eu sei que foi abusiva de muitas formas, numa interação em que eu não era enxergada, considerada, e nem respeitada na minha individualidade como mulher e ser humano, numa relação totalmente desequilibrada e sem reciprocidade.

Quando eu te afirmo que eu não sou mais aquela menina que você namorou, eu quero dizer que eu sei muito melhor do meu valor para me permitir voltar a uma posição de uso, que de formas inconscientes ou não me diminuíram como pessoa, rebaixaram minha confiança e me fizeram sentir sozinha mesmo estando com alguém “ao meu lado”.

Sabe, você nunca me amou de verdade. Porque não me amou na integralidade de quem eu sou, as boas e más características, nunca admirou e apoiou de fato minhas conquistas (na realidade sentiu-se ameaçado por elas), e assim, não foi sequer capaz de realmente desejar minha felicidade em todas as suas dimensões.

O que você amou em mim foram as boas partes que você pôde usufruir sem limites pela minha ingenuidade. O que você amou em mim foi a personagem que eu me tornei para me adaptar às suas exigências veladas, o que incluía me anular, viver às sombras, ser menor do que você, não falar o que eu queria (afinal, palavrões não se falam, não é mesmo?), não me portar como eu desejava (muito menos na frente de outras pessoas), numa timidez, numa constrição e insegurança tamanha que não são da minha natureza.

E depois de todos esses anos, na chance que dei a você para aproximar-se como amigo, você só conseguiu comprovar todas as conclusões a que eu tinha chegado e ainda mostrar que você não só deixou de evoluir como regrediu como pessoa nesses anos. Eu vi com esses novos olhos o quão manipulador você é, o quanto só quer manter uma relação de abuso e uso e tudo o que é capaz de fazer se isso não for suprido.

Então, como fiz naquele momento, hoje faço em claro e em bom tom para o universo entender, e para você entender, fática e energeticamente, que eu não tolero mais abuso de nenhum tipo na minha vida. Eu mereço muito mais do que você me deu ou poderia me dar. Eu sei muito bem quem sou e o que eu quero, e isso é diametralmente oposto a tudo o que eu fui e achava que eu queria naquela época. Eu nunca mais calei minha voz. Nunca mais silenciei minha vontade. Nunca mais apaguei meu brilho. Nunca mais deixei de ser nada por ninguém.

Fui atrás dos meus sonhos e de me reencontrar com toda a força que uma mulher tem dentro de si. Eu avancei terrenos que jamais fui capaz de sequer tangenciar ao seu lado. Descobri momentos, vivências, cores, sabores, liberdades e experiências que você jamais toleraria ou me proporcionaria quando eu estava ao seu lado.

Eu não tolero mais lugares que não me aceitem como eu sou, que não sejam recíprocos, que não me façam sentir acolhida e amada. Eu caminhei quilômetros de distância de toda aquela concepção de mundo (e de mim mesma) que você tinha. E eu encontrei muito, mas muito mais satisfação, felicidade e serenidade nesse novo mundo.

Então, não adianta querer se manter conectado a mim de alguma forma, real ou energética, sutil ou evidente. Eu nunca mais vou retornar para você porque eu nunca mais vou retornar para aquele ponto do passado em que eu fui tão apequenada, em que eu me submetia a uma relação tão pobre em trocas e respeito. Nem pra uma amizade, nem pra uma camaradagem. Porque eu não perco mais tempo com esse tipo de relação abusiva em nenhuma dimensão da minha vida. Nem pra coleguismo.

Entenda isso de uma vez por todas. Você não me conhece. E nem ia querer conhecer e se aproximar de quem eu sou hoje, porque essa aqui não lhe traria o que você quer.

Vá viver sua vida, e deixe eu viver a minha em paz. Não lhe quero mal. Mas não lhe quero perto, e vai por mim, você também não ia querer. Não nasci pra viver uma vida de coadjuvante, meu bem. E você não consegue dividir o papel principal com ninguém.

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Marian Koshiba
Formada em Direito, escritora por necessidade de alma, cantora e compositora por paixão visceral. Só sabe viver se for refletindo sobre tudo, sentindo o mundo à flor da pele. Quer transmitir tudo que apreende (e aprende) por todas as formas criativas possíveis.