Bento XVI, em carta aberta, pede perdão pela omissão nos casos de abuso sexual dentro da Igreja. O texto foi publicado antes mesmo da conclusão do processo.

Compartilhamos aqui a carta na íntegra para que todos possam entender o ponto de vista do primeiro Papa da história a renunciar o cargo de pontífice.

“Mea maxima culpa” pelo abominável pecado dos abusos e pelos erros que ocorreram. O olhar cristão do Papa emérito que exprime “profunda vergonha”, “grande dor” e “sincero pedido de perdão”, escreveu.

___Cidade do Vaticano, 8 de fevereiro de 2022

“Queridas irmãs e queridos irmãos!

Após a apresentação do relatório sobre os abusos na Arquidiocese de Munique e Freising em 20 de janeiro de 2022, gostaria de dirigir uma palavra pessoal a todos vocês.

De fato, apesar de ter sido arcebispo de Munique e Freising por pouco menos de cinco anos, minha profunda pertença à arquidiocese de Munique como minha pátria ainda persiste.

Em primeiro lugar, gostaria de expressar uma palavra de cordial de agradecimento. Nestes dias de auto-exame e reflexão pude experimentar tanto encorajamento, tanta amizade e tantos sinais de confiança que eu não poderia imaginar.

Gostaria de agradecer, particularmente, ao pequeno grupo de amigos que, com abnegação, compilaram minhas memórias de 82 páginas para o escritório de advocacia de Munique, que eu não poderia ter escrito sozinho.

Além das respostas aos questionamentos do escritório de advocacia, houve a leitura e análise de quase 8.000 páginas de documentos em formato digital. Esses colaboradores também me ajudaram a estudar e analisar o relatório de quase 2.000 páginas. O resultado será publicado após minha carta.

Na gigantesca tarefa daqueles dias – a redação do pronunciamento – ocorreu um descuido quanto à minha participação na reunião do Ordinariato de 15 de janeiro de 1980. Esse erro, que infelizmente ocorreu, não foi intencional e espero que seja desculpado. Decidi que o arcebispo Gänswein comunicasse isso à imprensa em 24 de janeiro de 2022.

Isso não diminui o cuidado e a dedicação que para esses amigos eram e são um imperativo absoluto óbvio. Impressionou-me profundamente que o descuido fosse usado para questionar minha veracidade e até mesmo para me apresentar como mentiroso.

Fiquei ainda mais comovido com as várias expressões de confiança, os testemunhos cordiais e as comoventes cartas de encorajamento que me chegaram de tantas pessoas. Estou particularmente grato pela confiança, apoio e orações que o Papa Francisco me expressou pessoalmente.

Por fim, gostaria de agradecer à pequena família do Mosteiro “Mater Ecclesiae” cuja comunhão de vida nas horas felizes e difíceis me dá aquela solidez interior que me sustenta.

As palavras de agradecimento agora também devem ser seguidas de uma confissão.

Impressiona-me cada vez mais fortemente que, dia após dia, a Igreja coloca no início da celebração da Santa Missa – na qual o Senhor nos dá a sua Palavra e a si mesmo – a confissão da nossa culpa e o pedido de perdão.

Oramos publicamente ao Deus vivo para perdoar nossa culpa, nossa grande e muito grande culpa.

É claro que a palavra “grande” não se aplica igualmente a todos os dias, a cada dia particular. Mas todos os dias Ele me interpela se também hoje, não devo falar de uma culpa muito grande. E Ele me diz consoladoramente que não importa quão grande seja minha culpa hoje, o Senhor me perdoa, se eu sinceramente, me deixar ser escrutinado por Ele e estiver realmente disposto a mudar a mim mesmo.

Em todos os meus encontros, especialmente durante as muitas viagens apostólicas, com as vítimas de abusos sexuais por parte dos sacerdotes, olhei nos olhos as consequências de uma culpa muito grande e aprendi a compreender que nós mesmos somos arrastados para esta grande culpa quando a negligenciamos ou quando não a enfrentamos com a necessária decisão e responsabilidade, como já aconteceu e acontece com muita frequência.

Como nesses encontros, mais uma vez só posso expressar minha profunda vergonha, minha grande dor e meu sincero pedido de perdão a todas as vítimas de abuso sexual.

Tive grandes responsabilidades na Igreja Católica, maior é a minha dor pelos abusos e erros ocorridos durante o tempo do meu mandato nos respectivos locais.

Cada caso de abuso sexual é terrível e irreparável. Minha profunda compaixão vai para as vítimas de abuso sexual e lamento cada caso.

Entendo cada vez mais a repugnância e o medo que Cristo experimentou no Monte das Oliveiras quando viu todas as coisas terríveis que teve que superar interiormente. Que naquele momento os discípulos estivessem dormindo, infelizmente, representa a situação que está acontecendo novamente hoje e para a qual também eu me sinto chamado.

E por isso, só posso orar ao Senhor e implorar a todos os anjos e santos e a vocês, queridas irmãs e irmãos, que orem por mim ao Senhor nosso Deus.

Em breve estarei enfrentando o juiz supremo da minha vida. Mesmo que ao olhar para trás, para a minha longa vida, possa ter muito susto e medo, ainda estou com o coração feliz porque confio firmemente que o Senhor não é apenas o juiz justo, mas ao mesmo tempo o amigo e irmão que já sofreu com minhas deficiências e, portanto, como juiz, é ao mesmo tempo meu advogado (Paráclito).

Em vista da hora do juízo, a graça de ser cristão torna-se clara para mim.

Ser cristão me dá conhecimento, além disso, amizade com o juiz da minha vida e me permite passar com confiança pela porta escura da morte.

A este respeito, o que João conta no início do Apocalipse vem constantemente à mente: ele vê o Filho do homem em toda a sua grandeza e cai a seus pés como morto. Mas Ele, colocando a mão direita sobre ele, diz-lhe: “Não tenha medo! Sou eu…” (cf. Ap 1,12-17).

Caros amigos, com estes sentimentos abençoo a todos vós. Bento XVI”.

Forte e impactante a carta de Bento XVI, que não só Deus, mas ele mesmo se perdoe pela omissão que culminou em vários outros casos de abuso dentro da Igreja. Quando o mal tem certez da impunidade, ele se perpetua. Essa confissão é um marco histórico dentro da Igreja e anuncia uma nova era onde a verdade se sobrepõe a mentira.

Que todos os envolvidos recebam o consolo que merecerem e que cada personagem dessa história seja responsabilizado com a parte que lhe cabe e que é devida.

Devemos conceder o perdão, mas não devemos eximir ninguém da própria responsabilidade, porque quando se foge a responsabilidade não há maneiras de se acessar a verdade.

E a verdade é única força que nos faz acessar o amor que tem o poder de dissolver o mal em nós. O perdão é uma concessão para que não voltemos a cometer os mesmos erros.

*DA REDAÇÃO RH. Com informações @apostoladoratzinger

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