Baixa autoestima. Ela pode estar te afastando das possibilidades de viver um amor saudável

Gisele Lacorte

A baixa autoestima interfere diretamente na qualidade de nosso relacionamento com a gente mesma, com o outro e com o mundo. Nossas primeiras relações de afeto com nossos cuidadores, exercem papel fundamental na maneira como vamos nos olhar, nos amar e nos valorizar na vida adulta.

A nossa autoestima está muito ligada à forma como fomos olhadas em nossa infância, principalmente pelos nossos pais e cuidadores. Quando somos olhados, amados, confirmados, validados por simplesmente ser quem somos, temos grandes possibilidades de nos tornar adultos seguros, com uma visão positiva de si mesmo.

Uma criança não tem uma visão ampla e abrangente para avaliar os acontecimentos, portanto, quando ela vive em ambiente de constante crítica, julgamentos, ofensas, piadas depreciativas a seu respeito, em geral, ela internaliza este tratamento como sua única possibilidade.

Ela aprende durante seu desenvolvimento a se olhar e se amar de acordo com o retorno que recebe do meio em que vive, com o passar do tempo, aprende a reproduzir este mesmo tipo de tratamento consigo mesma ao longo da vida.

Como psicóloga percebo que tratamentos depreciativos, desvalorizantes aliados a críticas severas aplicadas de maneira agressiva, podem deixar sequelas e traumas profundos em uma criança, e gerar uma grande insegurança na vida adulta.

A criança se desenvolverá de maneira saudável se ela se sentir acolhida em seus sentimentos e necessidades, já que as primeiras noções de autoestima das crianças são os olhares que os pais jogam sob elas.

A ideia para esse artigo surgiu em um dia daqueles, de ócio, em que só queremos deitar e esquecer da vida. Trocando de canal na TV, passo pelo filme água com açúcar “Noiva em Fuga” que estava acabando de começar.

Me recordo de há muitos anos atrás já ter assistido e penso ser uma boa! Um filme despretensioso para esse momento, que não demanda grandes reflexões.

Confesso que foi curioso assistir a um filme “Sessão da Tarde” com os olhos de hoje! A primeira vez que assisti ainda não era psicóloga, mas desta vez analisar traços de personalidade da personagem principal, assim como seu sistema familiar me trouxeram um toque de profundidade e colocaram meus planos de só assistir a um filme “água com açúcar”, por água abaixo…

Para quem não assistiu vou relatar brevemente a essência do filme, segundo o meu olhar: Maggie Carpenter, representada por Julia Roberts é uma garota estigmatizada na pequena cidade em que vive, já que foge da Igreja pela terceira vez, na hora do casamento, abandonando seus parceiros atônitos no altar.

O filme inicia com um jornalista, Ike Graham (Richard Gere) enviado a cidade para fazer a reportagem sobre a noiva em fuga. Maggie é uma garota que brilha, atrai olhares e pessoas se aproximam, é alegre, sedutora, divertida, bonita, engraçada, cheia de vida, entre outras várias características carismáticas e cativantes.

Entretanto não parece ter recebido auxílio e orientação de sua família, na verdade a mãe faleceu e o pai, um alcoólatra, não possuía condições psicológicas de auxiliar de outra forma, então sempre fazia piadas depreciativas e humilhantes sobre suas fugas. Ela já tão acostumada com esse tipo de comportamento, começou a achar natural ser ridicularizada, e até ria junto com aqueles que faziam piadas dela.

Maggie parece não ter recebido dentro de casa o cuidado necessário para a construção de um bom olhar e tratamento consigo mesma, parece não ter aprendido a olhar para as suas verdadeiras necessidades de mulher.

Quando a pessoa não entende o seu real valor. Quando não aprende desde a infância a desenvolver o amor por si mesma, para ela, fica muito difícil conceber que mereça mais do que estão oferecendo.

Brenne Brown, uma assistente social e pesquisadora, diz que intrigada em entender qual a diferença entre as pessoas felizes e as pessoas infelizes, realizou uma longa pesquisa para tentar encontrar qual era o fator que as separava.

Após analisar os resultados dos dados obtidos ela descobriu que um único fator separava as pessoas felizes das infelizes: o senso de merecimento. Percebeu ainda que as pessoas felizes acreditavam que mereciam ser felizes, enquanto as infelizes acreditavam que não.

Uma visão negativa de si mesma e um baixo senso de valor e merecimento, leva as pessoas a viverem em uma prisão torturante.

Pessoas que desenvolvem uma visão negativa de si mesmas vivem uma vida muito aquém do seu potencial de alegria, prazer e felicidade, simplesmente por acreditarem que merecem pouco e algumas vezes nada!

No caso de Maggie, fica bem claro a sua baixa autoestima, quando o filme mostra os belíssimos trabalhos que faz com luminárias e lustres que ficam guardados no fundo de casa.

Quando não nos damos valor, e não temos uma visão generosa e positiva de nós mesmos, temos dificuldade em apresentar nossos talentos ao mundo, por acreditarmos que nada que venha de nós pode ser suficientemente bom.

Um outro ponto que me chamou bastante a atenção foi a dificuldade da personagem em ter uma identidade definida. A cada namorado novo ela virava uma nova mulher, com gostos e atividades completamente diferentes. Como não havia uma identidade definida e sólida internamente construída, a personagem do filme pegava para si gostos e hobbies de seus namorados, ficando perdida em seus desejos, necessidades e anseios.

A personagem mal conseguia saber o tipo de ovos que gostava de comer pela manhã e a cada troca de namorado, mudava hábitos, gostos e preferências deixando seu ponto de referencia totalmente no outro, em vez de se conectar consigo mesma.

É exatamente este o ponto mais importante que quero ressaltar com este texto, Maggie Carpenter aqui representa as inúmeras mulheres que apesar de lindas, atraentes, talentosas, inteligentes, não conseguem ter uma visão positiva de si mesmas, não conseguem se amar e acabam vivenciando relações amorosas que lhes oferecem a mesma quantidade de amor que dão a si mesmas.

“Amar a si mesma (o) é o inicio de um romance que vai durar a vida inteira”. Oscar Wilde

As pessoas mais românticas costumam fantasiar um amor de filme com companheirismo, amizade, cuidado, aceitação, mimos e agrados…

Quantas de nós já suspiramos em um livro, filme ou até mesmo com um relato de uma história de um amor que nos fez bem?

Desta forma criamos a crença de que todo o amor que não recebemos em casa e não pudemos nos dar até hoje, deverá vir de fora, de uma relação, de um parceiro… e ficamos depositando nesse amor que ainda não chegou ou que pensamos ser o ideal, todas as nossas expetativas, acreditando que ele solucionará todos os nossos problemas internos de baixa autoestima, e que assim, seremos felizes para sempre!

Engole seu coração e se ama por dentro e lembre-se que o mundo e as situações respondem como um eco!

O que você emite através de suas crenças, sentimentos e pensamentos retornam a você na forma dos relacionamentos e situações vivenciadas.

Se por acaso você sofreu com pais que te depreciavam e tem o desejo que o seu mundo e seu padrão relacional mudem, assuma a responsabilidade!

Invista em sua saúde emocional: revisitar nossas histórias, expurgar nossas dores, ressignificar os acontecimentos e criar uma visão mais positiva de si mesma e da vida, podem te proporcionar um salto significativo em bem-estar e qualidade de vida.

A personagem do filme com razão, tinha tanto medo de compromisso, muito pelo fato de se perder no outro e por faltar uma identidade e um autoconhecimento que lhe possibilitasse colocar limites e dizer não. A falta de uma estrutura familiar que a envolvesse com o amor que necessitava a levou a desenvolver esse medo que a fazia, constantemente, fugir de seus pretendentes.

Quantas de nós também sabotamos relacionamentos que poderiam dar certo e escolhemos aqueles que não nos trarão nutrição? O que será que tem por trás deste comportamento?

Maggie antes do tradicional final feliz da década de 90, resolve passar um tempo sozinha, investir em seu trabalho e descobrir qual é o tipo de ovo que ela quer comer de manhã, independente de quem estiver ao lado dela.

Autoconhecimento, auto validação, generosidade e empatia consigo mesma, nos empodera e nos assegura de que somos capazes de fazer boas escolhas para nós mesmas.

O amor e o relacionamento que você tanto procura fora de você, começa aí dentro.

Antes de focar no externo, faça para você o que deseja receber do outro!

Se leve a praia, se convide para jantar, se acolha, se respeite, se ame, cuide de você como seu bem mais precioso.

Perdoe seus pais por tudo! E recomece! Renasça para uma nova vida!

Nós falamos muito sobre as mulheres nesse artigo! Mas os homens também vivem a mesma coisa! Fazer escolhas amorosas erradas não é privilégio apenas das mulheres!

Como a vida é um eco, uma vez que este trabalho esteja sendo bem feito a vida e seus relacionamentos responderão a altura. Acredite!

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Gisele Lacorte
Psicóloga clínica, terapeuta corporal, consteladora familiar e orientadora profissional. Escritora e facilitadora de workshops, palestras e grupos terapêuticos que visam auxiliar as pessoas a reconhecer e ativar sua potencia de realização e alegria de viver através da reconexão com a sua verdadeira essência, do profundo cuidado com o sentir e com o poder de expressar suas emoções mais genuínas. Desenvolve trabalhos personalizados para grupos e empresas.